Os Jogos de Rodrom

Eles são somente peões descartáveis nos jogos assassinos de Rodrom

 

CICLO Mordred

 

17

OS JOGOS DE RODROM

POR

JENS HIRSELAND

 

IMAGEM DA CAPA

GABY HYLLA e LOTHAR BAUER

Título Original:

Rodroms Spiel

 

Tradução:

Dirceu Alvir Rudnick

 

Revisão:

Márcio Inácio Silva

Marcos Roberto

 

Formatação final para liberação no Projeto Traduções:

Márcio Inácio Silva

 

Capa em português

Manuel de Luques

 

Conversão para os formatos ePub, PDF e Mobi:

José Antonio

Publicação não comercial

O projeto Dorgon – ciclo Mordred – é uma publicação não comercial feita por fãs do Centro de fãs do PERRY RHODAN e. V., Rastatt (Tribunal Distrital de Mannheim, VR 520740) e representada por Nils Hirseland, Redder 15, 23730 Sierksdorf. Esta fanfic foi escrita por fãs para fãs da série PERRY RHODAN.

 

A tradução para o Português do Brasil é feita com autorização de Nils Hirseland.

 

Perry Rhodan®, Atlan®, Icho Tolot®, Reginald Bull® e Gucky ® são marcas registradas

Perry Rhodan KG, Rastatt, Alemanha (PR KG),

Star Sistemas e Projetos Gráficos Ltda., Belo Horizonte, Brasil

 

www.projtrad.org/dorgon

dorgon@projtrad.org

  1. O que aconteceu até agora 

 

O final do ano de 1290 NCG a Organização Mordred tratou de espalhar terror e pavor na Via Láctea. Ela age nos termos do misterioso Rodrom e do filho do caos Cau Thon, que obviamente querem mergulhar a via láctea em um caos, para, em seguida, tomar o poder.

Mas isso agitou a resistência das profundezas do Universo. Assim, os cavaleiros das profundezas de Shagor tornaram-se os novos aliados dos terranos. No entanto, Cau Thon atacou a sede dos cavaleiros e matou todos eles, com exceção de dois, que escaparam e encalharam na galáxia Zerachon.

Além disso, uma espaçonave terrana foi arrastada pela ação de forças superiores para Zerachon. Um grupo heterogêneo precisa agora procurar uma maneira de cumprir a missão de poderes superiores e se torna vítima dos JOGOS DE RODROM...

 

Personagens principais deste episódio:

Próspero – O príncipe de Zechon e adorador de Satanás.

Gal’Arn – O cavaleiro das profundezas que procura Dorgon.

Jonathan Andrews – Ele quer ocupar o lugar de Irasuul.

Remus e Uthe Scorbit – O casal acredita se encontrar em um filme de terror.

Jaktar, Yasmin Weydner, Dom Philippe de la Siniestro, Reinhard Katschmarek e Werner Niesewitz – Outros membros da expedição.

Kamelia – Esposa de Próspero.

Gwendo – Um anão estranho.

Anica e Jaquine – Duas moradoras que não sabem o que as esperam.

 

Prólogo

 

Rodrom estava fascinado com as histórias do escritor terrano Edgar Allan Poe. Ele quase lamentou que este tivesse morrido há milhares de anos. Para ele, a imaginação fantasiosa do escritor era, apesar de Poe ser um carnal primitivo, uma fonte de novas inspirações. Certamente teria sido interessante trocar ideias pessoalmente com ele e talvez ele se dignasse a auxiliá-lo a desprender-se de sua prisão carnal e ascender para a grandeza ao seu lado. Mas o espírito fascinante de Poe dissipou-se há muito tempo no hiperespaço e apenas seu legado literário permaneceu.

Perdido em pensamentos, ele ativou a função de reprodução do cristal de armazenamento, que, entre outros materiais notáveis sobre a ambiguidade da psique terrana, continha às obras completas de Poe. Embora a maior parte do material não fosse nada mais do que uma série de brutalidades banais, sem qualquer fineza, mas esta coleção do lamaçal da cultura terrana mostrava a ele que a ordem de seu mestre, para transformar os terranos em uma importante força auxiliar e a célula embrionária da nova ordem cósmica, não deveria ser tão difícil. Provavelmente isso apenas exigiria algumas medidas específicas — e, naturalmente, a eliminação destes imortais irritantes que rodeavam Perry Rhodan — para revelar a verdadeira natureza humana. Sim, MORDROR ficaria satisfeito.

Durante suas reflexões, o projetor tinha apresentado uma página após a outra no holovisor. Para ele, não havia nenhuma dificuldade para acompanhar vários processos de pensamento, ao mesmo tempo, graças ao seu gênio superior, somente um olhar para a página projetada era suficiente para ele não apenas captar o conteúdo, mas também refletir sobre todos os aspectos. Um carnal precisaria de horas para a mesma tarefa, mas ele era mentalmente muito superior a esses vermes corpóreos.

As histórias “Os Assassinatos da Rua Morgue” e “A Máscara da Morte Escarlate” o tinha particularmente impressionado, tanto que ele via como um paralelo para si, porque muitas vezes se referia a si mesmo como a morte vermelha.

Agora a TERSAL com os cavaleiros das profundezas sobreviventes estava presa na galáxia Zechon, depois de ele ter se ocupado com a manipulação do portal estelar. Então este alyskiano teve a audácia de se intrometer em seu trabalho. Desta forma, estes terranos do passado, a quem tinha dado a sua especial atenção, se reuniram com os cavaleiros. Obviamente, o alyskiano acreditava com arrogância desmedida que ele podia desafiá-lo para um jogo. Pois bem, ele estava muito disposto a adicionar um pouco de explosividade e alegria ao tédio. Por causa disto, ele tinha entrado nessa tentativa tola deste idiota e aceitou o desafio. Assim, a TERSAL estava em seu caminho de um planeta primitivo chamado Zerachon.

Muitas vezes, seus adversários subestimaram a capacidade de Rodrom para criar algo criativo. Em Zerachon, ele projetou um mundo, que ele preencheu livremente com seres correspondentes as obras do terrano Poe. Foi fácil para ele influenciar estes camponeses primitivos e tornar o príncipe local no príncipe Próspero1.

A influência sobre toda a população local e os informantes de Zorryk tinha sido um esforço mental enorme, que, no entanto, tinha lhe dado certo prazer.

Mesmo assim, ele ficou impressionado com a energia negativa que os zechonenses irradiavam. Eles eram primitivos, rancorosos, estúpidos e egoístas. Era possível que mais tarde ele ainda encontrasse uso para eles.

O príncipe Garshrek tornou-se agora o príncipe Próspero. Ele nem precisou mudar muito de caráter, porque ele era um déspota e governava seu povo primitivo com sadismo e arbitrariedade. Rodrom precisou apenas fazer umas pequenas melhorias aqui e ali. Ele sentia-se como um diretor, apenas que seu ator não sabia o roteiro.

A tripulação da TERSAL encontraria em Zechon um cenário baseado na vontade de Rodrom e provavelmente pereceria nele. Se eles sobrevivessem, eles divertiriam Rodrom e ele poderia estudar melhor os terranos e shagorianos.

Em todo caso, eles agora seriam parte dos Jogos de Rodrom...

 

1.

Um pesadelo

 

Um dia exaustivo estava terminando agora. Os acontecimentos na galáxia Zerachon ainda queimavam na memória de Uthe Scorbit. O sombrio Cau Thon e o açougueiro Goshkan haviam deixado um rastro de sangue. Uthe Scorbit ainda tinha as palavras de Cau Thon na consciência.

— O medo é meu aliado... Eu sinto o seu medo.

A voz soava tão perto, achou a jovem terrana. Ela levantou-se de sua cama sobressaltada e olhou em volta no escuro. Angustiada, ela procurou a mão do marido, mas ele não estava na cama.

— Remus? — chamou ela em voz baixa.

Então, ela ouviu passos. Olhou para frente. Lá, ela descobriu uma figura sombria em pé diretamente a frente de sua cama. Dois olhos brilhavam num tom vermelho-fogo.

— O medo a paralisou, ele a agarrou e a deixou incapaz de fazer qualquer coisa — disse a criatura no quarto dos Scorbits.

Uthe conhecia aquela voz. Pertencia a Cau Thon!

— O que você quer de mim? — gritou ela, horrorizada.

Agora todo o corpo de Cau Thon começou a brilhar. Um vermelho-escuro iluminou o quarto. Agora, ela também percebeu que Goshkan estava em um canto. Ele parecia trabalhar em alguma coisa. Novamente ele enfiou sua espada em um objeto.

Tremendo de medo, Uthe estava incapaz de pensar claramente.

— Vá embora! — gritou a terrana em pânico.

— Não, eu vou pegar você — disse Cau Thon com ar sombrio, apontando seu bastão para Goshkan, ele saiu para o lado. Revelando o corpo mutilado de Remus Scorbit, que estava dilacerado.

Uthe gritou. Goshkan agarrou o cadáver e atirou-o sobre a cama. Então Cau Thon levou seu bastão semelhante a uma lança e saltou em sua direção.

— Não! — Ela gritou em voz alta.

Aterrorizada, ela virou-se na cama para lá e para cá, em seguida, abriu os olhos. Uthe estava encharcada de suor e, devido ao pânico, sua pulsação estava duas vezes mais rápida.

Agora ela percebeu que Cau Thon não estava em seu quarto. E Remus dormia tranquilamente no outro lado da cama.

Tinha sido um pesadelo, um pesadelo deprimente! Uthe Scorbit respirou aliviada. Ela exortou-se a se recompor. Uthe sabia que tempos difíceis estavam por vir e esse encontro com Cau Thon certamente não fora o último. Agora, ela precisava ser forte, quer queira quer não.

A jovem terrana não tinha escolha!

Ainda assim, foi difícil para ela adormecer novamente. Cau Thon era ainda pavoroso para ela, era como se ela tivessem ido ao encontro do diabo encarnado.

 

2.

Na TERSAL

 

Na manhã seguinte Uthe dirigiu-se ao refeitório, enquanto Remus ainda dormia como uma pedra. Ela, pelo contrário, não conseguiu fechar os olhos depois do terrível pesadelo e esperava que um café da manhã reforçado a colocasse em pé novamente.

O clima a bordo da TERSAL estava bastante deprimente depois dos acontecimentos terríveis em Zorryk.

Apenas os terranos idosos do passado estavam de bom humor. Especialmente Katschmarek, Niesewitz e Wieber pareciam, em companhia dos Braunhauer, estar pouco interessados nos eventos atuais, mas sim, consumir as reservas de álcool a bordo tão rápido quanto possível.

Quando Uthe entrou no refeitório, Dom Philippe de la Siniestro, que gostava de ser chamado de marquês, os três terranos idosos e o casal Braunhauer já estavam lá. Jezzica Tazum cuidava do bem-estar físico dos presentes. Uthe gemeu por dentro ao ver estas pessoas. Essa companhia certamente não era a coisa certa para os seus nervos em frangalhos. Mas agora estava tarde demais para voltar atrás. Além disso, ela estava com fome.

— Olá, Jezzica. Eu podia comer algo e beber um café forte? — perguntou ela.

— Claro, é pra já. Sente-se — respondeu a bela loira.

Uthe preferiria ficar longe dos Braunhauer, mas ela não queria ser rude e sentou-se em uma cadeira vazia ao lado deles. Os dois idosos já estavam tomando o café da manhã. Ottilie Braunhauer sorriu e disse:

— Bom dia, Ulla.

Uthe fez uma careta de má vontade. Esta mulher simplesmente não conseguia guardar seu nome.

— Uthe, sra. Braunhauer, meu nome é Uthe! — disse ela mais alto do que pretendia.

Uthe sabia que isso tinha sido um erro.

— Por que você gritou comigo assim? — perguntou Ottilie com uma voz chorosa. — Por que você está tão nervosa?

Uthe pediu desculpas.

— Sinto muito, mas eu dormi tremendamente mal.

— Oh, pare com isso! Como você acha que eu dormi? — lamentou-se a Braunhauer. — Você não pode imaginar! Eu estou acordada desde as duas da manhã. Eu estou me sentindo maldisposta...

Uthe estava arrependida de ter se sentado ali. Ela estava suando e passou as costas da mão na testa.

— Será que você está com febre? — quis saber Ottilie, observando cada gesto de Uthe.

— Não, eu não tenho febre! Eu estou suando.

— E daí? Eu também suo muito — interrompeu Karl-Adolf Braunhauer de forma acusadora.

Uthe tocou a testa com o dedo indicador.

“O cara não pode ter tudo o que ela tem”, pensou ela. “Porque ela tinha que se sentar precisamente neste lugar!”

— Você está tão nervosa, minha criança. Exatamente como papaizinho — iniciou a Braunhauer novamente.

— Agora está tudo bem, Ottilie — Karl-Adolf Braunhauer advertiu sua tagarela esposa mandona.

— Agora não fique tão nervoso papaizinho — disse a Braunhauer. Então ela virou-se para Uthe. — Hoje meu marido está novamente muito mal. As muitas emoções ultimamente prejudicaram a sua saúde. Ele tomou muito laxante e foi ao banheiro várias vezes hoje de manhã. Antes disso, ele ficou sem ir ao banheiro por vários dias. Mas isso também já aconteceu comigo. Primeiro eu não fui ao banheiro por três dias, então eu tomei laxante e precisei ir a cada três minutos. Imagine isso!

A sra. Braunhauer contou esta anedota, que não despertava nenhum interesse em Uthe.

— Isso é muito interessante — disse Uthe ironicamente.

— Ah, você está nervosa. Você deveria tomar alguns comprimidos para se acalmar. — De repente a sra. Braunhauer se assustou. — Papaizinho, é hora de nossas pílulas.

— Eu não as tenho. Você as trouxe — respondeu o sr. Braunhauer, irritado.

— Eu não. Você devia tê-las trazido.

— Não, Ottilie, você perdeu elas novamente. Toda vez que eu arrumo algo ordenadamente, você perde elas!

Os dois discutiram por um tempo até que eles concordaram que as pílulas deviam estar seus aposentos e eles deviam procurar lá. Para o alívio de Uthe, o casal deixou ao refeitório. Os dois estavam se tornando cada vez mais difíceis de aturar.

Finalmente, Uthe recebeu seu café da manhã e o tomou.

— Bom apetite, Señora — Uthe ouviu alguém dizer.

Era o marquês Siniestro, que estava à sua frente. Apesar de ele estar elegantemente vestido, era de uma feiura assustadora.

O marquês sorriu, mostrando os dentes amarelados.

— Obrigada, marquês.

— Posso me juntar a você, Señora Scorbit?

Sem esperar por uma resposta, o marquês sentou-se ao lado de Uthe.

— Ouvi a pouco que você tinha dormido mal. Eu sinto muito — disse Dom Philippe com simpatia.

Uthe, que se alegrou por alguém estar interessado nela, descreveu ao marquês seu pesadelo noturno.

— É terrível, o que eu estou ouvindo — disse Dom Philippe. — Minha querida criança, o que você precisa agora é um forte protetor.

O marquês torceu seu rosto enrugado em um sorriso e colocou as mãos sobre as mãos de Uthe.

— Você é uma mulher jovem, bonita e desejável. Você merece coisa melhor do que o que você tem agora. Há muito tempo eu estou à procura de uma mulher que seja tão parecida com você. Mas, na minha época, não havia tais mulheres.

Uthe foi desagradavelmente tocada.

Jezzica, que preparava um novo café, acreditou não ter ouvido corretamente e olhou para eles de forma estranha. Ela trocou um contato visual significativo com Uthe Scorbit e fez um gesto para o velho espanhol, que expressava de forma inequívoca sua aversão ao terrano.

— Caro marquês, eu sou uma mulher casada.

O marquês fez um gesto casual.

— Ah, com aquele Zé ninguém. Eu já corrijo isso.

— Felizmente sou casada, eu gostaria de salientar. Que nada e ninguém pode abalar o meu amor por Remus.

Jezzica sorriu atrás das costas do marquês e fez um gesto afirmativo com o polegar para Uthe.

O marquês retirou suas mãos e levou-as ao seu coração.

— Que tragédia para mim. A única mulher que seria digna de casar comigo, já é casada. Você não gosta de mim, não é? — perguntou o marquês, visivelmente abatido.

Uthe teve pena dele. Ele era um pobre velho que perdeu sua casa e tudo o que conhecia. Ele certamente se sentia perdido nesse mundo estranho para ele.

— Sim, caro Dom Philippe. Você é para mim como um velho avô gentil, que eu nunca tive.

Por um momento, os olhos do marquês brilharam irritados, mas depois seu rosto novamente assumiu um sorriso amável.

— Bem, minha querida, então me deixe ser um amigo paternal para você.

Uthe concordou com isto.

— Com prazer, marquês. Agora eu preciso de Remus. Até logo.

 

*

 

Jonathan Andrews entrou na central de comando da TERSAL. No momento, somente Gal’Arn estava lá. O rosto de Andrews deu a impressão de estar tenso a Gal’Arn.

— O que houve, Jonathan?

Jonathan revirou os olhos.

— Nada de especial. Eu encontrei os Braunhauer. Primeiro eu tive que carregar uma caixa de bebidas para seus aposentos, então eles me pediram para procurar seus comprimidos. Depois de virar o quarto de cabeça para baixo, o sr. Braunhauer encontrou os comprimidos no bolso de sua calça. Estas pessoas são simplesmente impossíveis! Eles incomodam toda a tripulação e nem percebem! Nós devíamos deixá-los no próximo planeta habitável!

Gal’Arn examinou Jonathan criticamente. Ele não concordava com o que o jovem astronauta dissera.

— Eles também são seres vivos. Eles pensam, têm sentimentos e querem ser feliz.

— Eu duvido. Eles ficam felizes somente se eles estão infelizes.

— Como cavaleiro das profundezas, eu tenho o dever de preservar todas as formas de vida até mesmo os Braunhauer. Eu não faço nenhuma diferenciação. Você também não deve fazê-lo. Você tem muito a aprender, meu caro Jonathan.

Andrews assentiu desconcertado. Gal’Arn certamente estava certo. Ele era muitas vezes impulsivo. Jonathan pensou por um momento, então disse a Gal’Arn:

— Você está certo, Gal’Arn. Eu tenho muito que aprender. Por favor, me ensine. Eu tenho pensado nisso há muito tempo. Eu quero ser um cavaleiro das profundezas. Deixe-me ser o sucessor de Irasuul.

Por um momento Gal’Arn ficou sem palavras. Ele não tinha certeza se Jonathan Andrews era a pessoa certa para ser o sucessor de Irasuul. Mas sua oferta era sincera, ele podia sentir isso.

Ele merecia uma chance.

— Ouça, Jonathan. Tornar-se um cavaleiro das profundezas, requer muito esforço e paciência. Goshkan não tinha essas qualidades e se tornou uma catástrofe para a ordem dos cavaleiros. Mas você tem um coração puro. Por isso lhe darei uma chance. Eu o considerarei como uma espécie de segundo orbitante. Se você realmente se mostrar digno, vou te aceitar como aprendiz de cavaleiro das profundezas e te treinar.

Jonathan sorriu de orelha a orelha.

— Obrigado, Gal’Arn

— Pense em minhas palavras. Não seja muito impulsivo. A força de um Cavaleiro está no silêncio.

— Eu farei isso. O que faremos agora?

Gal’Arn apontou para a tela do radar.

— Nós chegaremos em breve a um planeta chamado Zechon. Lá, devemos encontrar o observatório de Próspero, do qual o príncipe Thomun falou. Lá, nós tentaremos fazer averiguações deste observatório, a fim de determinar a localização da galáxia Dorgon. Nessa ocasião, eu certamente precisarei da sua ajuda, Jonathan.

— Eu estou pronto para qualquer coisa — assegurou Andrews, radiante.

Embora as coordenadas de Dorgon estivessem armazenadas na TERSAL, estas os levaram a Zerachon. É por isso que Gal’Arn não confiava nessas informações. Eles precisavam de mais dados para efetuar cálculos mais precisos. Por isso, eles precisavam descobrir onde estavam para realizar os cálculos para outras galáxias. Se esses dados astronômicos confirmassem as coordenadas do banco de dados da TERSAL, então a falha de transporte evidentemente estaria localizada no portal estelar.

De qualquer forma, o computador de bordo da TERSAL parecia não conhecer a galáxia de Zerachon e não forneceu nenhuma determinação de localização. O mais importante era que eles encontrassem dados utilizáveis sobre Zerachon e outras galáxias em Zechon, para que pudessem terminar seu voo cego.

 

*

 

Bem-humorado Jonathan foi ao refeitório para festejar sua “nomeação” para orbitante auxiliar. Seu bom humor, no entanto, foi novamente nublado pela memória da terrível morte da jovem camponesa Jereta, que foi brutalmente assassinada por Goshkan. Jonathan a tinha amado muito e nunca a esqueceria. Ódio surgiu em Andrews — ódio de Goshkan.

Mas ele precisava se esforçar para ficar calmo. Um cavaleiro das profundezas não deveria retaliar, Gal’Arn havia dito. Gal’Arn também tinha sofrido perdas terríveis por meio de Goshkan, mas o cavaleiro das profundezas não ficou perturbado.

Jonathan sabia que ele ainda precisava trabalhar duro, para se aproximar de seu novo modelo, Gal’Arn.

Quando o jovem terrano entrou no refeitório, os três terranos idosos, Katschmarek, Niesewitz e Wieber, estavam lá ao lado de Jezzica Tazum. “O refeitório parecia ser o lugar favorito deles”, pensou Jonathan. “Sempre que se chegava lá, os três já estavam ali.”

— Dê-nos mais um pouco, garota! Nossas garrafas estão vazias e nossa sede é tão grande — gritou Reinhard Katschmarek, com uma voz grave para Jezzica. O homem estava visivelmente bêbado.

— É isso aí — concordou Eberhard Wieber.

— Você não acha que já teve o bastante? — perguntou Jezzica, indignada.

— Nós temos idade suficiente para sabermos por nós mesmos, pequena — respondeu Werner Niesewitz, venenoso.

O homenzinho balançava o tempo todo com a perna direita.

— Talvez a doçura queira participar da festa? — disse Katschmarek, contemplando Jezzica visivelmente com olhares lascivos.

— Venha, sente conosco — disse Katschmarek, agarrando Jezzica nos quadris, em seguida, sentou-a em seu colo.

Jezzica retribuiu Katschmarek com uma sonora bofetada na cara.

— Ei, você está louca? Sua pateta estúpida! Você pagará por isso. Nenhuma mulher trata um Katschmarek assim!

Irado, Katschmarek se levantou e estendeu a sua mão direita para dar um tapa em Jezzica.

Agora bastou para Jonathan Andrews. Até agora ele tinha se contido, mas agora ele simplesmente precisava intervir. Andrews agarrou o braço direito de Katschmarek e puxou-o de volta.

— Deixe a Jezzica em paz, seu porco depravado!

— Por quê... porque você está se metendo nisso, seu fedelho — balbuciou Katschmarek e soprou a sua respiração cheirando álcool no rosto de Jonathan.

— Tenha cuidado, garotinho! Não mexa com a gente — queixou-se o pequeno Niesewitz de seu lugar. Ele ameaçadoramente levantou os bracinhos e cerrou o punho de sua mão direita.

— Exatamente! Reini Katschmarek ainda te levará para a cama — gritou Katschmarek.

— É isso aí — concordou Wieber.

Katschmarek quis investir contra Jonathan, mas este o agarrou pelo colarinho e empurrou-o para o chão. Katschmarek caiu sobre uma cadeira, cuja estrutura flexível cedeu e, assim, amorteceu a queda de Katschmarek.

— Vocês dois comediantes também querem isso? — perguntou Andrews ameaçadoramente para os outros dois.

— Eu não. Eu estou velho e doente — disse Wieber.

— Você tem sorte, garotinho, que eu não me sinto muito bem hoje. Caso contrário, ficaria ruim para você. Eu servi na Wehrmacht e, assim, matei alguns bolcheviques e franceses com um golpe. Mas nós ainda nos falaremos — disse Niesewitz ameaçadoramente.

Andrews sabia pouco sobre a vida desses três alemães, como eles próprios se chamavam. Ao contrário do marquês, ele não queria os três como parceiros de conversa. Contudo, tanto Niesewitz como Wieber tinham contado a todos que haviam lutado no exército alemão na chamada Segunda Guerra Mundial, o último grande conflito global abrangente terrano. Niesewitz relatou orgulhoso de suas missões na Frente Oriental e na França. Wieber, no entanto, tinha sido apenas um soldado. Ele serviu como médico e mais tarde como um capitão no exército antes de ser aposentado, quando começou a unificação da Humanidade e a fundação do governo mundial terrano. Katschmarek, por outro lado, provavelmente tinha sido apenas como um jovem recruta 2 na chamada Juventude Hitlerista. Ele, pelo menos, não falou sobre quaisquer operações militares.

De qualquer forma, Andrews não levou a ameaça de Niesewitz a sério. O homem tinha a idade biológica de 65 anos. No século 13 NCG ele não era considerado um velho, mas na sua época as pessoas eram aposentadas aos 65 anos. A vida e o desempenho físico no século 20 era muito diferente do que atualmente.

Niesewitz e Wieber levantaram-se de seus lugares, ajudaram seu amigo e deixaram o refeitório.

Jezzica abraçou Jonathan, aliviada.

— Obrigado, meu salvador. Os três me incomodaram durante o dia todo.

— Na verdade, eu queria comemorar a minha nomeação à orbitante, mas provavelmente os três não deixaram sobrar nenhuma bebida alcoólica — disse Jonathan.

— Eu ainda tenho alguma coisa comigo.

Os dois foram para a cabine de Jezzica Tazum e beberam Vurguzz. Jonathan percebeu novamente a beleza da terrana, seu corpo perfeito, seu sorriso maravilhoso e seus olhos profundamente azuis.

Eles conversaram sobre tudo, desde as suas vidas antes da TEBAS. Os dois sentiam como se tudo tivesse sido um sonho. Andrews tinha menos problemas com isso, porque ele sempre buscava por aventura. Agora ele a encontrou e a nomeação à orbitante o deixou muito orgulhoso.

Jezzica, no entanto, sentia-se sozinha e às vezes sobrecarregada. Ela era uma garota de festa, podia descrevê-la como alguém que passava de uma festa para outra.

A vida na TERSAL estava associada com muita responsabilidade e disciplina. Uma mudança que provavelmente não estava muito fácil para ela. Além disso, havia o medo — medo do desconhecido e dos perigos. Sua vida mudou completamente e também apavorava a jovem terrana. Ela se sentia perdida e desamparada.

Talvez, ela pensasse que Andrews podia lhe dar algum apoio e livrá-la de sua solidão. Ela olhou no fundo dos seus olhos e Jonathan soube que não podia resistir a seus encantos. Lentamente, ela se aconchegou nele.

— Fique comigo esta noite, Jonathan. Eu não quero ficar sozinha.

Andrews pensou em Jereta. Sua morte fora há apenas três dias. Ele ainda sentia profundamente o terror associado a isso. Ele tomou as mãos de Jezzica. — Eu também não — disse Jonathan, em seguida, beijou-lhe as mãos. — Mas eu não estou pronto para uma nova aventura deste tipo...

 

3.

O planeta Zechon

 

Dois dias mais tarde, nos quais nada de especial aconteceu, a TERSAL pousou no planeta Zechon. Eles precisaram de cinco dias para o voo e gastaram esse tempo intencionalmente. Gal’Arn queria que os passageiros tivessem tempo para se conhecerem um pouco, antes de se depararem com a próxima aventura.

Ali, Gal’Arn esperava encontrar um observatório com amplos dados astronômicos para determinação de localização. Fora isso não sabia nada sobre este remoto planeta. Ele tinha uma atmosfera de oxigênio e estava habitado. Os nativos, no entanto, não pareciam dispor de viagem espacial.

— Nenhuma instalação técnica foi localizada — leu Jaktar nos instrumentos. Com um movimento do dedo no touchpad de sua interface, Jaktar ampliou a imagem tridimensional do planeta.

Em Zechon, havia seis continentes, dos quais dois eram grandes ilhas. Muitas regiões eram subdesenvolvidas. A população total de Zechon era de apenas 176 milhões de habitantes. Eles estavam espalhados por todo o planeta. Alguns recordaram o mundo de Zorryk. Obviamente, era provável que neste setor da galáxia de Zerachon houvesse poucas civilizações de astronautas.

Andrews considerou o nível de tecnologia dos zechonenses como medieval. Eles nem sequer conheciam a eletricidade.

— Estranho. Ali deveria estar um observatório? — perguntou Jonathan cético.

— Sim, pelo menos, foi o que disse o príncipe Thomun — confirmou Gal’Arn.

— E isso já foi realmente muito tranquilizador — disse Jonathan sarcasticamente.

Confrontamos com o príncipe Thomun no planeta Zorryk, pouco antes de termos sido atacados cruelmente por Cau Thon e Goshkan.

— Apesar disso, nós seguiremos esta pista. Pouse próximo a um assentamento, Jaktar! Precisamos encontrar esse Próspero — ordenou Gal’Arn.

— Sim — mestre.

 

*

 

Pouco depois, a TERSAL pousou em uma clareira. Ali, havia uma floresta, e atrás da floresta havia uma aldeia. Gal’Arn quis visitar esta aldeia primeiro.

— Jonathan, você e Jaktar irão comigo. Avise também os Scorbits. Eles serão sempre uma grande ajuda para nós. O restante do pessoal permanecerá a bordo.

— Farei isso.

— Eu não deveria acompanhá-los? — ofereceu-se o marquês.

— Eu me sentiria melhor, se você estivesse tomando conta da nave, marquês.

Dom Philippe fez uma breve reverência.

— Será uma honra para mim.

Pouco depois, o grupo deixou a espaçonave e dirigiu-se através da floresta para a aldeia. A floresta dava uma impressão de ser estranha e escura. Um nevoeiro se movia pelo ar. Uthe estremeceu. Seu marido colocou gentilmente o braço em torno do ombro dela.

Andrews tirou um binóculo sintrônico e vasculhou a área. Em todos os lugares eram vistas cabanas de madeira miseráveis.

— Isso parece bastante patético — disse ele, resignado.

— A primeira impressão nem sempre é decisiva. Devemos ir ao fundo das coisas, para obter um quadro completo — advertiu-o Gal’Arn.

— Sim, mestre — suspirou Jonathan.

Jaktar deu-lhe um tapinha no ombro.

— Isso acontece quando se quer ser um orbitante.

— Ali têm pessoas — disse Uthe.

Ela apontou para duas jovens que deviam ter cerca de 18 anos de idade. Elas estavam na borda da floresta e juntavam lenha. Ambas eram muito bonitas, uma loira e a outra morena. Suas roupas correspondiam aproximadamente a dos terranos da Idade Média.

— Fale primeiro com elas, Uthe. Talvez elas confiem mais em você porque é uma mulher — disse Gal’Arn.

Uthe caminhou lentamente para as duas garotas. Ela sorriu e acenou. Naturalmente o tradutor estava ligado.

— Bom dia para vocês duas. Somos viajantes e viemos de muito longe.

O tradutor de Gal’Arn, da TERSAL, era superior a um modelo terrano e traduziu com bastante rapidez.

Ele verificou que era a mesma língua falada em Zorryk.

— Saudações, minha senhora — disse a loira gentilmente.

— Meu nome é Uthe. E quais são os seus nomes?

— Eu sou Jaquine — respondeu à loira, apontando para a morena. — Esta é minha amiga Anica.

— Eu, meu marido Remus e meus amigos Gal’Arn, Jonathan Andrews e Jaktar gostaríamos de visitar a sua aldeia.

— Oh, bem. Nós raramente recebemos visitantes de fora — disse a morena Anica.

— Onde você mora?

Jaquine apontou para uma casa de fazenda primitiva.

— Ali. Esta é a casa de meu pai, o açougueiro Hackibrai. Anica mora três casas a frente.

— Nós também temos vacas e porcos — disse Anica com orgulho.

— Isso é ótimo. Eu quero apresentar-lhes os meus amigos.

Gal’Arn, Remus, Jonathan e Jaktar saíram da floresta e foram recebidos pelas duas camponesas zechonenses. No entanto, elas ficaram estupefatas ao verem Jaktar.

— Um greey corredor sobre duas pernas. Que encanto — disse Jaquine. De acordo com a descrição de Anica, um greey podia ser comparado provavelmente com um cavalo.

— Eu posso fazer muito mais. Eu posso falar — disse Jaktar e assustou as duas zechonenses com esta declaração. Gal’Arn pigarreou. Uthe explicou a elas que Jaktar era inofensivo e, que em sua terra natal, os greeys falavam e andavam sobre duas pernas. Anica e Jaquine acreditaram nela.

As duas jovens levaram os visitantes da TERSAL por uma estrada enlameada ao assentamento chamado Utin. Enquanto isso, Anica tagarelava sobre suas vidas.

Anica era filha do criador de greeys Sekotam. Ela crescera protegida na vila, mas nunca pudera frequentar a escola, porque Próspero proibia os súditos de estudarem.

Ela e Jaquine eram as melhores amigas, informou Anica. Da mesma forma, que ela amava greeys e todos os animais nos arredores.

— É por isso que eu também te amo, greey falante — disse Anica e riu. Rapidamente, Gal’Arn e os outros tomaram conhecimento da ingenuidade de Anica.

Jaquine crescera na mesma aldeia agrícola que Anica. Ela era a filha do mestre açougueiro Hackibrai e um dia deveria conduzir o negócio, o que deixava Jaquine pouco entusiasmada. Ela tentou fazer tudo para ser poupada desse destino. Ao contrário de Anica, Jaquine não se mostrava tão ingênua.

As duas provavelmente não tinham uma vida variada em sua aldeia. Os destaques de sua vida provavelmente representam as festas da aldeia. Três vezes por ano, havia um churrasco, que era realizado em homenagem ao senhor das terras Próspero.

Enquanto Uthe teve problemas para atravessar a lama. Apesar de ela também ser filha de um fazendeiro, mas uma fazenda no século 13 NCG era um pouco mais moderna do que os celeiros e estábulos sujos de Zechon.

Então também começou a chuviscar. Uthe amaldiçoou o tempo, que ainda arruinou seu coque. Por fim, chegaram à aldeia. Mas o entusiasmo foi pequeno. A aldeia consistia de cerca de duas dezenas de casas de madeira com telhados de palha. Ao redor da aldeia, havia uma cerca de madeira com um metro de altura. Ali, tudo parecia muito pobre, sujo e bagunçado. Uma fonte de pedra obviamente era o centro de toda a aldeia. Todos os tipos de gado vagavam e gingavam pela área. Figuras desoladas e pálidas olhavam de seus capuzes os recém-chegados com desconfiança.

— Lindo — disse Uthe ambígua.

— Nós gostaríamos de falar com o prefeito responsável — disse Gal’Arn.

— Huh? — fez Anica.

— Com o homem mais alto da aldeia.

— Então, o mais alto é Kuni, ele tem mais de dois metros de altura — disse Anica com grande simplicidade.

— Ah, não. Eu quis dizer o homem que manda aqui.

— Você certamente quis dizer os anciãos da aldeia? — perguntou Jaquine.

Gal’Arn assentiu com um sorriso gentil.

— Certamente ele está dormindo agora. Geralmente ele fica na estalagem e bebe tanta cerveja até que adormece.

— Eu disse que estamos no luar certo — disse Jonathan Andrews sarcasticamente, o que lhe rendeu um olhar severo de Gal’Arn.

— Venha para a nossa casa. Gostaríamos de convidá-lo para jantar. Talvez você possa ajudar o meu pai — sugeriu Jaquine.

— Com prazer, essa é uma boa ideia — concordou Gal’Arn.

 

4.

Os moradores de Zechon e o príncipe Próspero

 

A chuva ficou mais forte. O grupo seguiu as duas jovens para uma das casas de madeira. Ela parecia melhor do que as outras nos arredores. Ela tinha duas entradas. Uma delas, obviamente, era para o abatedouro de seu pai, o outro dava para a área privada. No entanto, essa não era muito confortável. O piso era coberto com palha. No cômodo principal, que era a sala de estar e a cozinha ao mesmo tempo, havia uma grande mesa de madeira quadrada, algumas cadeiras e um armário. Uma panela de sopa borbulhava na lareira. Ao lado, havia dois animais semelhantes a cabras dormindo.

Primeiro Jaquine apresentou os visitantes aos seus pais. Mal encarados e pouco amáveis, os camponeses examinaram os estranhos.

— Eu sou Hackibrai. Vocês foram convidados por minha filha, então eu devo respeitar a lei da hospitalidade — disse o açougueiro carrancudo. — Mas depois de comerem, vocês devem ir embora!

Jonathan viu-se obrigado a intervir.

— Escute, camponês. Aqui você tem um cavaleiro das profundezas e sua comitiva diante de você. Nós não somos mendigos! Não se atreva a nos ofender. Isso seria ruim para você.

Intimidado, o camponês cedeu.

— Desculpe-me, senhor. Eu não sabia que você é um cavaleiro.

— Agora sirva. Meu senhor está com fome!

O camponês incitou sua esposa a ir para a cozinha e se curvou humildemente diante Gal’Arn, para o qual isso era desagradável.

— Eu acho que não está correto, como você está tratando ele, mas está exatamente correto nesta situação. Você está certo, Jonathan — disse Gal’Arn, sorrindo.

Jaquine e Anica declaram com orgulho que os estranhos vieram de uma terra onde os greeys andavam sobre duas pernas e podiam falar. Hackibrai suportou o olhar de Jaktar com indiferença. Será que tanto os zechonenses como os zorrykers estavam acostumados à visão de extraterrestres?

O grupo sentou-se e, logo depois, a mulher do camponês serviu a refeição. Parecia ensopado. Cético, Jaktar cheirou-o.

— O que é isso? — perguntou ele, emburrado.

— Isso é beterraba. A melhor coisa que temos, senhor — disse a camponesa carrancuda.

— Isso tem um sabor muito bom. Agradecemos a sua hospitalidade — respondeu Gal’Arn educadamente.

— De onde vocês são? — perguntou Jaquine, curiosa.

— Isso não da sua conta — Jonathan respondeu com arrogância.

Gal’Arn lançou lhe um olhar severo. Envergonhado, Andrews abaixou a cabeça e decidiu permanecer em silêncio.

— Nós viemos de uma terra distante — esclareceu Gal’Arn aos nativos com uma voz amigável.

Remus e Jaktar remexeram na comida e trocaram olhares significativos. Ambos não pareciam apreciar a refeição.

— Apenas estamos de passagem — disse Uthe.

— E para onde vocês estão indo? — perguntou Anica.

— Nós estamos procurando pelo observatório de Próspero.

Quando Uthe mencionou o nome Próspero, Hackibrai deixou cair a colher em estado de choque.

— O nome diz algo para vocês? — perguntou Gal’Arn, sentindo que estava no caminho certo.

— Claro, o príncipe Próspero é o governante de nosso país e até mesmo de todo o mundo e mais além — disse Jaquine.

— Cale-se, filha! — gritou Hackibrai com raiva. — Nunca mencione esse nome em minha casa! Ele traz má sorte.

— Mas ele não pode nos ouvir aqui, papai — retrucou Jaquine.

— Ele tem olhos e ouvidos em todos os lugares. Ele é onipotente. O Difus é seu aliado!

— O demônio? — concluiu Remus Scorbit corretamente.

O açougueiro assentiu ansioso e juntou as mãos com reverência.

— O Senhor das Trevas, a escuridão e o mal. Próspero é seu fiel seguidor. Não fale mais dele! Ele manda os pássaros nos espionarem e, então, eles contam a ele o que dissemos.

Jonathan balançou a cabeça, incrédulo.

— Isso tudo não passa de contos de fadas.

— O que é afinal um observatório? — perguntou Anica aos outros.

Uthe Scorbit teve de reprimir uma risada. Seu marido não foi capaz de fazê-lo completamente. Uthe limpou a garganta antes de responder Anica.

— Um observatório é um grande telescópio, com o qual podemos ver as estrelas.

— Obra do diabo! — gritou Hackibrai, receoso. O camponês teria gostado de colocar seus convidados indesejados porta afora, mas ele tinha medo de Jonathan Andrews, que olhava severamente para ele.

— Bobagem, ciência... Um dia vocês aprenderão isso também — disse Gal’Arn.

— Ouvi dizer que no castelo de Próspero havia algo para olhar as estrelas — contou Anica.

— Silêncio, você está falando bobagem! — xingou Hackibrai.

— Não fique sempre interrompendo! Se você não se calar de uma vez por todas, vou fazer que você mantenha a boca fechada — Jonathan ameaçou o nativo.

Gal’Arn deixou-o fazer isso, porque o açougueiro estúpido realmente apenas estava atrapalhando.

— Então vocês têm medo do príncipe Próspero? — perguntou ele as duas garotas.

— Sim, ele é muito cruel. Nós precisamos pagar altos impostos. Aqueles que não podem pagar tem a casa incendiada — disse Jaquine.

— E onde fica o castelo de Próspero?

— Não muito longe daqui. Ao norte, em uma colina depois da floresta. É um grande castelo.

Gal’Arn refletia sobre qual seria a melhor forma prosseguir agora. Mas, pouco tempo depois, ele foi perturbado em suas reflexões. O camponês Hackibrai correu para porta e gritou várias vezes:

— Ele está chegando! Ele está chegando!

Gal’Arn e Jonathan levantaram-se e foram até ele.

— Quem está chegando? — perguntou Gal’Arn.

Mas Hackibrai apenas conseguia gritar.

Gal’Arn fez um sinal para Jonathan. Este agarrou o camponês e deu-lhe duas bofetadas. Isso funcionou. Hackibrai recuperou à razão.

— Por favor, senhor, não me bata mais — suplicou ele.

— Quem está chegando? — perguntou Gal’Arn novamente em uma voz calma.

— O príncipe Próspero! Eu disse! Os pássaros nos espreitaram às escondidas e informaram imediatamente a ele o que falamos dele. Agora, ele punirá a todos nós.

— Bobagem, isso é apenas uma coincidência — disse Gal’Arn.

— Talvez possamos conversar mais razoavelmente com ele do que com estes camponeses supersticiosos — disse Jonathan.

Gal’Arn assentiu. Em companhia de Andrews, Jaktar e os Scorbit ele saiu da casa para dar uma olhada nos recém-chegados. Jaquine e Anica os acompanharam. Hackibrai, por outro lado, se escondeu na sua casinha3.

Eram aproximadamente cinquenta cavaleiros armados com lanças e montados em animais semelhantes a cavalos. Esses deviam ser os tão falados greeys. Em meio aos cavaleiros, encontrava-se uma carruagem nobre que brilhava em dourado. Cerca de dez soldados desmontaram de seus animais e formaram uma guarda de honra para a carruagem. Um oficial abriu a porta da carruagem. Os homens eram do mesmo povo que os camponeses e também o homem que saiu da carruagem, eram humanoides. Ele tinha cerca de 1,80 metro de altura, usava um bigode e estava vestido da cabeça aos pés com uma refinada túnica de cor preta.

— Abram caminho para o príncipe Próspero, seus inúteis! — gritou o oficial.

Os aldeões se curvaram com medo para o príncipe Próspero, que examinou-os com uma expressão de pouco-caso.

— Vós sois apenas criaturas patéticas, pequenas e preguiçosas — disse ele com uma voz calma e áspera.

— E, no entanto, até vocês tem uma certa utilidade para mim. Eu escolho suas mulheres mais bonitas para me fazerem companhia em meu castelo. Onde está o ancião da aldeia?

Um soldado trouxe o assustado ancião da aldeia ao príncipe.

— Aqui está ele, senhor. Ele estava, como sempre, na estalagem, bebendo.

Próspero examinou o velho, que tremia de medo, com um sorriso avaliador.

Próspero nasceu no sombrio planeta Zechon na galáxia Zerachon. Ele era o filho do duque Ebanim que sujeitou durante a vida quase todo o continente.

O filho do príncipe tinha tudo o que queria e não se importava com a vida dos camponeses. Ele gostava de atormentá-los e humilhá-los. Em sua juventude, um ser estranho havia aparecido para ele, vestido todo em vermelho e disse-lhe que ele era o emissário de Difus, o demônio em Zechon e Próspero deveria prestar culto a ele, então um dia ele teria grande fama.

Neste momento aconteceu que a terrível doença escarlatina varreu o planeta e custou milhões de vidas, incluindo Ebanim e a mãe de Próspero.

Agora que ele estava há décadas como governante. Alguns alienígenas visitavam de vez em quando o mundo primitivo. Eles construíram um observatório astronômico.

Somente Próspero e seus “estudiosos” tinham acesso. Os alienígenas lhe explicaram que os zechonenses deveriam conhecer seu ambiente para se tornarem mais maduros. Próspero, no entanto, não estava muito interessado nisso. Ele sabia que o mundo Zorryk era semelhante ao seu. Não, Próspero não queria se tornar uma atração turística de alienígenas, nem compartilhar seu poder com eles.

Ele levou muito a sério as palavras do ser vermelho, de quem ele tinha um medo ilimitado, e a partir de então orou unicamente para Satanás, tentando impressioná-lo com o seu governo impiedoso e cruel sobre seus súditos.

Anos depois ele se casou com a bela nobre Kamelia. Os primeiros anos foram bons e Próspero muitas vezes mostrou clemência, mas depois ele caiu novamente em sua ilusão de Difus e escravizou o povo. Sua esposa Kamelia temia pela graça de seu marido e decidiu servir ao demônio também.

Próspero era conhecido por seus impulsos sádicos e humilhava todo mundo, para mostrar que era o mais poderoso em Zechon.

— Velho, você colocará suas mulheres na praça do mercado, para que eu possa observá-las.

— Sim, senhor — concordou o velho.

— Então se apresse. Eu não tenho o dia todo.

O ancião da aldeia apressou-se em executar as ordens de Próspero o mais rápido possível.

Gal’Arn assistiu o incidente com crescente preocupação. Próspero era obviamente um contemporâneo tão malvado quanto o príncipe Thomun. Parecia melhor ficar em segundo plano.

Pouco tempo depois, as mulheres se reuniram na praça do mercado com uma fonte de pedra, que estava no centro da aldeia. Anica e Jaquine também precisaram estar lá. Próspero caminhou para as mulheres e olhou para ela atentamente. Ele parou na frente de uma mulher de boa aparência de cabelos pretos.

— Você aí, você podia me agradar — disse ele amavelmente.

A mulher de cabelos negros sorriu. Ela mostrou os dentes, que, no entanto, tinham mais buracos que dentes. Revoltado Próspero fez uma careta.

— Caia fora daí! Você insulta meus olhos!

A mulher foi levada pelos soldados e Próspero continuou sua inspeção.

Uthe ficou nas proximidades e observou preocupada quando o príncipe se aproximou de Anica e Jaquine. Ela se afeiçoou imediatamente as duas e não deixaria que nada mal acontecesse com elas. Como Jaquine e Anica eram as mais bonitas da aldeia, naturalmente Próspero não as deixaria escapar. Ele parou na frente delas e as estudou extensivamente.

Sorrindo e balançando a cabeça, ele disse:

— Vocês duas são o que estou procurando. Vocês me acompanharam para o meu castelo.

— Por favor, não, senhor — implorou Jaquine. — Deixe-nos fica aqui. Aqui é a nossa casa!

— Isso é o que você chama de lar? Essa pestilenta caverna piolhenta? Fique feliz que você escapou da morte escarlate. Apenas em meu castelo estarão a salvo dela. Agora venham.

— Não, senhor. Nós não queremos — gritou Anica desafiadora.

Próspero fez um careta de má vontade.

— O que você disse? A palavra não, não faz parte do meu vocabulário. Hoje eu estou muito benevolente e, portanto, me abstenho de puni-las por seu comportamento audacioso. E agora embarquem imediatamente na carruagem. É uma ordem!

Anica e Jaquine não sabiam o que devem fazer. Elas correram para Uthe e os outros, que estavam na estalagem.

— Uthe, por favor, nos ajude. Nós não queremos ir com ele — suplicou Jaquine.

Uthe sabia que era insensato, mas ela não podia agir de outra forma. Ela precisava ajudá-las.

Próspero e seus homens vieram correndo imediatamente. O príncipe percebeu imediatamente que estava lidando com estranhos.

— Quem são vocês? De onde vieram? — perguntou ele.

— Nós viemos de longe. Somos amigos — disse Uthe.

— Então, vocês são amigos. Então provem e me entreguem a minha propriedade!

— Não vejo nada aqui que podia ser sua propriedade.

— Eu quero ouvir o seu tom de voz impertinente mais uma vez. Você é um estranho e não sabe com quem está lidando.

— Sim, você é o príncipe Próspero, o governante local.

— O governante mais poderoso em todo o Zechon — esclareceu Próspero, irritado. — Portanto, mulher, dê-me as duas garotas. Elas pertencem a mim.

— Como pode outra pessoa pertencer a você? — perguntou Uthe, irritada.

— Todos esses camponeses estúpidos pertencem a mim. Eu permito que eles vivam e trabalhem em minha propriedade. Para isso, eles precisam ser submissos a mim.

Uthe estremeceu. Este Próspero era assustador. Ele era, sem dúvida, mais perigoso do que o príncipe Thomun. Mas agora não havia como voltar atrás.

— De onde viemos, todos são livres e decidem para onde vão ou não.

— Em Zechon, eu sou a lei. Chega de baboseiras! Guardas, peguem as garotas!

— Não, deixe-as em paz! — gritou Uthe e se colocou diante de Anica e Jaquine.

Próspero examinou ela interessado.

— Você tem coragem, eu gosto disso. Você é melhor que esses animais. No entanto, não deve exagerar.

Uthe obstinadamente permaneceu parada. Próspero retirou a luva preta de sua mão direita e bateu com força no rosto de Uthe. Uthe cambaleou para trás.

Isso foi demais para Remus, que até agora tinha se contido, na esperança de que Uthe fosse capaz de resolver a situação pacificamente. O terrano correu para Próspero e derrubou-o com um soco certeiro. Os guardas imediatamente correram para proteger seu mestre, cujo rosto refletia uma mistura de malícia e de espanto.

Agora Gal’Arn, Jaktar e Jonathan Andrews se aproximaram. Gal’Arn ajudou Próspero a levantar. Este olhou curioso para o cavaleiro das profundezas.

— Eu peço desculpas pelo meu amigo, nobre príncipe — Gal’Arn tentou acalmar a situação. — Ele agiu apenas com a intenção de proteger sua esposa. Tenha paciência com os dois!

— Quem é você? — perguntou Próspero.

— Eu sou Gal’Arn, estes são meu aprendiz Jonathan Andrews e meu assistente Jaktar. Somos cavaleiros de uma terra distante. Os Scorbit são nossos amigos. Eles não tinham nenhuma intenção de ofendê-lo. Por favor, seja generoso e perdoe-os.

Próspero fez uma careta irônica.

— Perdoar? Eles ousaram ofender o poderoso governante de Zechon. Deveriam morrer por isso. Mas eu serei clemente e não os matarei imediatamente. Todos vocês são meus prisioneiros.

Com um sinal do príncipe, os guardas cercaram o grupo. Eles estavam armados com lanças, espadas e balestras.

— Rendam-se, cavaleiros. Ou vocês serão todos mortos — ameaçou Próspero calmamente.

Gal’Arn refletiu. Apesar dos guardas terem apenas armas primitivas, eles estavam em melhor posição e em maioria. Além disso, havia o risco de que o príncipe se vingasse nos aldeões. O cavaleiro das profundezas, portanto, achou melhor desistir.

— Tudo bem, príncipe, nós nos rendemos.

Jonathan não concordou com isso.

— Mas, Gal’Arn contra eles é que vamos lutar — protestou ele.

— Faça o que eu digo, Jonathan.

Relutantemente Andrews, Jaktar e Gal’Arn retiraram as armas.

Próspero observou, curioso.

— Muito interessante. Vocês realmente parecem ter vindo de muito longe. Mas eu ainda vou descobrir. Guardas, levem-nos para o castelo!

Gal’Arn, Andrews, Jaktar e os Scorbit foram amarrados e colocados em uma carroça. Anica e Jaquine também foram levadas. As duas imploraram e choraram, mas não ajudou. Próspero não conhecia nenhuma piedade. O príncipe subiu em sua carruagem e o comboio começou a se mover.

 

5.

Plano de resgate

 

O marquês estava entediado a bordo da TERSAL. Então ele decidiu seguir os outros. Quem era esse Gal’Arn, que achava que podia dar ordens para ele, um Dom? Além disso, este mundo lembrava a ele um pouco da sua terra natal em Siniestro, por isso ele queria dar uma olhada no planeta em mais detalhes. Quando ele chegou à borda da floresta, que delimitava a aldeia, ele percebeu os eventos que precederam e a captura do grupo.

O marquês achou melhor não ser visto. Quando os soldados tinham ido embora, ele voltou rapidamente para a nave. Lá, ele pediu a todos os membros da tripulação restantes que fossem à sala de conferências.

Enquanto Jezzica Tazum e Yasmin Weydner apareceram rapidamente, os três terranos idosos e os Braunhauer vieram com relutância. O velho casal já estava usando roupa de dormir, embora não fosse tão tarde.

— Você precisava nos importunar? — protestou o sr. Braunhauer. — Nós precisamos de nossa sesta. Estamos muito, muito doentes e precisamos descansar!

O marquês fez um careta quando sentiu o hálito de álcool de Ottilie. Talvez tivesse sido muito melhor ignorá-los. Mas agora era tarde demais.

Karl-Adolf Braunhauer colocou a mão esquerda sobre o coração e a outra mão nas costas. Gemendo, ele afundou-se em uma cadeira.

— Papaizinho, você não está se sentindo bem? — perguntou a sra. Braunhauer com a voz arrastada.

— Eu não estou me sentindo bem. Eu me sinto um pouco tonto novamente. Eu não sei bem porquê. Isto deve ser o tempo.

Yasmin ajudou Ottilie a sentar-se rapidamente em uma cadeira. Ela temia que a mulher fosse desmaiar novamente, como tinha ocorrido em Zorryk.

— O que está acontecendo? Por que fomos perturbados? — perguntou Werner Niesewitz.

— Aconteceu algo terrível que afeta todos aqui a bordo. Nossos queridos amigos foram capturados pelo príncipe Próspero, o governante local.

As reações foram muito diferentes. Enquanto Yasmin e Jezzica ficaram chocadas, parecia que Niesewitz, Katschmarek e Wieber ficaram alegres. O sr. Braunhauer, no entanto, parecia não compreender o que tinha acontecido. Ele olhou desconfiado para o marquês, como se este estivesse louco.

— O que ele está dizendo? — perguntou Braunhauer a sua esposa.

Ottilie explicou a ele de seu modo desajeitado, até que ele finalmente compreendeu isso.

— Bem, neste caso, eu estou disposto obviamente a agir como um novo comandante.

— Isso tudo é bobagem. Precisamos libertá-los — disse Jezzica Tazum, irritada.

Convidativamente, ela olhou para o marquês.

— Você precisa iniciar uma operação de resgate o mais rápido possível.

Por um lado, o marquês sentiu-se lisonjeado que foi considerado pela bela Jezzica como salvador, por outro lado, ele ficou ofendido que uma mulher se atrevia a falar com ele nesse tom. Dom Philippe se levantou.

— Bem, obviamente eu sou o único que é capaz de realizar uma operação de resgate. No entanto, gostaria de salientar que eu apenas disponho do pessoal aqui presente para fazer isso. Nem todos são excelentes combatentes, como me parece.

Jezzica olhou ao redor. O marquês estava certo.

— Eu sugiro que devemos sair imediatamente daqui — sugeriu Katschmarek, receoso.

— Ah sim? E quem pilota a espaçonave? Você talvez? — perguntou o marquês com desdém.

A sra. Braunhauer tomou a palavra.

— O papaizinho deve tomar o comando. Ele é muito inteligente e um líder.

O marquês riu.

— Seu papaizinho não pode sequer nós levar até o próximo banheiro.

— O que ele disse? — perguntou Braunhauer a sua esposa.

Como Ottilie não lhe contou, ele estremeceu e levou a mão novamente ao coração com o rosto cheio de lágrimas.

— Sem Gal’Arn e os outros, nós estamos perdidos — disse o marquês. — Por isso, precisamos libertá-los.

— Mas como? O pessoal aqui não está em condições de segurar um radiador térmico nas mãos — disse Yasmin.

— Por isso, vamos recorrer a um ardil, bela señorita. Eu tenho um plano e preciso de sua ajuda e de todos os homens aqui — disse Dom Philippe. — Além disso, os estoques de cerveja se esgotaram.

Com isso Katschmarek, Niesewitz e Wieber foram convencidos. Eles não tinham mais dúvidas.

Contudo, Ottilie Braunhauer não.

— Nós não podemos fazer isso. Nós estamos muito velhos — rejeitou ela.

O marquês sussurrou no ouvido de Yasmin. Então, esta desabotoou ligeiramente a blusa, caminhou até Karl-Adolf e olhou para ele inocentemente.

— Por favor, querido Karl-Adolf, ajude-nos. Sem você nós estaremos irremediavelmente perdido. Faça isso por mim. Por favor...

Quando Braunhauer examinou a jovem de perto, sua vitalidade retornou de repente. Seu sofrimento parecia ter desaparecido.

— Mas é claro, minha querida. Eu ajudo sempre que posso.

— Mas papaizinho, sua bexiga e suas costas — disse Ottilie.

Mas Braunhauer não queria ouvir mais nada disso agora.

— Fique quieta, Ottilie! Nós vamos com eles, basta!

O marquês permaneceu, diante desta tripulação, cético. Mas eles apenas conseguiriam algo com um ardil.

 

6.

No castelo de Próspero

 

Enquanto isso, o comboio com os prisioneiros cruzou uma floresta estéril e escura. Quanto mais perto eles chegavam do castelo de Próspero, mais estéril era a paisagem. Um tronco de árvore ressequido seguia o próximo. Nevoeiro permeava o ar frio. Os prisioneiros sentiam arrepios neste ambiente assustador.

— Tão pior eu também não podia ter feito — rosnou Jonathan Andrews.

— Seja paciente — acalmou-o Gal’Arn. — Pelo menos nós chegamos mais perto do observatório.

— Brilhante método — zombou Jonathan. — Então, nós poderemos gravar isso como um obituário em nossa lápide. Se tivermos uma.

— Eu apenas sinto muito por Anica e Jaquine — lamentou-se Uthe. — Eu não pude fazer nada por elas.

— Você fez o que podia. Agora, no entanto, precisamos pensar em nós primeiro — disse Remus.

— O que eles provavelmente farão conosco? — perguntou Jaktar para Gal’Arn, preocupado.

— Eu acho que, por enquanto, eles não nos farão nada. O príncipe Próspero está curioso em saber quem somos e de onde viemos — respondeu o cavaleiro das profundezas.

— Isso me deixa muito calmo — respondeu Jaktar asperamente.

— Afinal, ainda existem alguns de nós em liberdade. Eles nos ajudarão — Gal’Arn tentou acalmar os outros.

— Oh sim, o marquês, os Braunhauer e os três patetas. Então esse é o fim para nós — resmungou Jonathan.

Um pouco mais tarde, o comboio chegou ao castelo. Ela era grande e sombrio. Os Scorbit sentiram-se em antigos filmes de terror que os lembravam dos romances do famoso escritor Edgar Allan Poe, ficcionista do século 19, cuja especialidade era contos assustadores sombrios. Suas histórias foram filmadas e refilmadas várias vezes.

Apenas agora ele percebeu que um personagem fictício das obras de Poe era chamado Próspero e tinha grande semelhança com este Próspero. Todo o ambiente parecia quase como se alguém estivesse fazendo uma brincadeira sádica com eles. Como se fossem atores involuntários em um filme de trivídeo de um conto de Poe. Isso tudo era apenas uma coincidência? Tinha que ser, porque em Zerachon ninguém conhecia a literatura terrana. No entanto, Remus tinha aprendido nos últimos meses que os seres normais, mortais muitas vezes tinham se tornado apenas joguete nos planos cósmicos muito estranhos de forças superiores. Talvez desta vez, também. Infelizmente, Remus não conseguia se lembrar do nome exato ou do curso da história. Mas como era uma obra de Edgar Allen Poe, isso terminaria em muito sangue e muitas mortes. Estas não eram perspectivas tranquilizadoras.

— Um produtor de filme de terror adoraria esse lugar. É o local de filmagem ideal para uma coisa dessas — disse Remus finalmente.

— Quem sabe o que nos espera lá dentro — temeu Uthe.

A ponte levadiça foi baixada e a carruagem e a carroça com os prisioneiros rolaram para dentro do castelo. No pátio, os carros pararam. Os prisioneiros tiveram que sair.

— Vamos, Vamos logo! — ordenou um soldado a eles.

Próspero deu algumas instruções ao seu pessoal.

— Os homens vão para o calabouço. As mulheres serão levadas para a minha esposa. Elas devem tomar banho e, então, serão distribuídas como servas, até que eu decida definitivamente sobre elas — ordenou ele a um oficial.

— Sim, senhor.

O oficial curvou-se e imediatamente passou a executar as ordens de seu senhor.

Enquanto Gal’Arn, Remus, Jonathan e Jaktar eram trancados no calabouço escuro, nas profundezas do castelo, o oficial levou Uthe, Anica e Jaquine para o palácio. Tão sombrio parecia o castelo do lado de fora, quanto era magnificamente decorado em seu interior. Lá, haviam tapetes magníficos, colunas dos melhores mármores e móveis das madeiras mais finas para admirar.

Um homem pequeno, não mais alto do que 1,20 metro de altura, cruzou seu caminho.

— Ei, Gwendo! Pare! — gritou o oficial para o anão que humildemente parou.

— Sim, meu senhor? — perguntou ele modestamente.

— Gwendo, estas são três novas serviçais da aldeia. Leve-as para Kamelia! Ordem de Próspero!

— Sim, meu senhor.

O oficial ficou satisfeito e Gwendo virou-se para as três recém-chegadas.

Anica teve que rir.

— Que garotinho mais fofo você é!

O anão, que tinha cerca de quarenta anos, não achou graça.

— Cale-se, sua puta estúpida! Eu sou Gwendo, o bobo da corte. Além disso, o mordomo substituto e, portanto, seu superior — disse ele, venenoso.

— Desculpe-me, eu não sabia — disse Anica, claramente intimidada.

Uthe tinha uma observação afiada na ponta da língua, mas em vez disso preferiu segurar. Neste planeta, havia muitos loucos, era melhor não contrariá-los.

— Agora você já sabe. Vocês me devem respeito.

— Agora, o que acontecerá conosco? — perguntou Jaquine.

— Eu as levarei para Kamelia, esposa de Próspero. De agora em diante vocês vão servi-la. E ai de vocês se ela reclamar! Então vocês vão se ver comigo.

— Eu já estou tremendo de medo — respondeu Jaquine ironicamente.

Gwendo olhou maliciosamente para ela, mas não respondeu ao comentário sarcástico.

— Agora venham.

Gwendo conduziu as três, escada acima. Lá eles encontraram um idoso esplendidamente vestido. Gwendo fez uma reverência.

— Saudações, príncipe Tychmon — disse ele educadamente.

O mencionado repuxou o rosto em um sorriso de escárnio.

— Veja, o anãozinho ridículo.

O príncipe Tychmon apontou para as três mulheres.

— Que belezas você traz ai?

— Três novas serviçais da aldeia.

— Muito bonitas. Leve-as para o meu quarto. Todas as três — ordenou o príncipe imperiosamente.

“O próximo louco”, pensou Uthe.

Também parecia como se todo o cenário fosse familiar para ela. Como se ela já tivesse lido ou visto isso antes.

— Nós fomos distribuídas à esposa do príncipe de Próspero e destinadas apenas a ela — discordou a terrana.

O príncipe Tychmon olhou zangado para ela.

— Cale-se, mulher imunda! Você provavelmente não sabe quem eu sou?

— Sim, o príncipe Tychmon, um arrogante, descortês e fanfarrão — passou pelos lábios de Uthe.

— Você vai pagar por isso, mulher! — gritou Tychmon, irritado.

— Senhor, ela está certa. Elas foram destinadas a Kamelia — disse Gwendo.

— Você também se atreve a me contradizer?

— Não, senhor. Mas apenas o príncipe pode decidir se elas assumirão outra tarefa. Eu tenho a missão de escoltá-las até a princesa.

— Você vai pagar por isso!

Tychmon deu um chute no abdômen de Gwendo. Então ele retirou um chicote de seu cinto.

— Mulheres rebeldes sentem na pele o chicote por aqui!

— Chauvinista desprezível! — gritou Uthe e colocou-se de forma protetora a frente de Anica e Jaquine.

O príncipe Tychmon não entendeu o que Uthe queria dizer com isso. Ele também não se importou. Ele preparou-se para dar um golpe com seu chicote nas três. Mas antes que ele pudesse bater, foi interrompido.

— O que está acontecendo aqui? — gritou uma voz feminina.

No corredor apareceu uma bela mulher pálida com o cabelo vermelho. Ela estava vestida com um elegante vestido preto. O príncipe Tychmon ficou envergonhado.

— Princesa Kamelia, me perdoe. Eu apenas...

Kamelia o interrompeu.

— Eu sei o que você queria, príncipe Tychmon. Você já perturbou minha meditação com a sua barulheira. Eu acho melhor que você vá agora!

O príncipe, que parecia agora bastante arrependido, fez uma reverência.

— Sim, princesa. Perdoe-me, se eu a perturbei.

Tychmon lançou um olhar de desprezo para Uthe, em seguida, deixou apressadamente o corredor.

Anica, que sentiu pena de Gwendo, ajudou o anão atordoado.

— Pobre pequenino. Eu sinto muito.

Gwendo protestou.

— Eu não preciso de nenhuma piedade!

O anão se levantou rapidamente. Em seguida, ele foi até a princesa Kamelia, curvou-se humildemente.

— Oh, Lady, estas são três aldeãs — anunciou ele com voz importante. — Seu marido as enviou para você, a fim de servi-la, por enquanto.

Kamelia assentiu.

— Que assim seja. Mande as três se banharem e se limparem. Então, elas devem ser alojadas perto de meus aposentos.

Gwendo curvou-se novamente.

— Sim, minha senhora.

Kamelia virou-se para as três.

— Vocês foram afortunadas que eu estava na vizinhança. Com o príncipe Tychmon não dá para brincar. Mas não pensem que vocês falarão comigo neste tom — acrescentou ela com uma ameaçadora voz baixa.

Uthe queria protestar e dizer-lhe o que pensava de Próspero e todos os seus companheiros, mas achou melhor ficar em silêncio. Ali estas pessoas eram muito loucas e agressivas. Não se podia argumentar com elas. Agora era necessário fazer uma boa cara apesar do desagrado e esperar por uma oportunidade favorável que os homens as libertassem e escapar do castelo.

— Sim, senhora — disse Uthe obediente.

— Tudo bem, então agora vão — disse Kamelia, mais branda.

Kamelia nascera como filha do nobre duque Kompure. Ela levou uma existência mimada, o que a tornou uma mulher arrogante e sádica. Ela se agarrava na realeza, e por isso o casamento com Próspero foi exatamente de acordo com o seu desejo. Ela compartilhava a cobiça e o sadismo de Próspero. Então deixava torturar e humilhar seus servos. Sim, até mesmo seus amantes secretos não estavam seguros diante dela. Kamelia também gostava de expressar sexualmente seus desejos sadomasoquistas. Seja como escrava de Difus ou como senhora de seus amantes. Quando ela estava satisfeita, seus amantes estavam condenados a morte.

Ela reverenciava a força de Próspero, sua calma e seu carisma diabólico. Ele era a pessoa certa para ela. A mulher ávida de poder desfrutava de sua posição e nunca perdia uma oportunidade para apresentar-se como a primeira-dama. Com medo de perder essa posição algum dia, ela tinha feito um pacto com o diabo, compartilhando a paixão por Próspero pelo culto a satanás e submetendo-se repetidamente a provações cruéis para reforçar a sua lealdade para com Difus e Próspero.

Uthe, Anica e Jaquine foram conduzidas por Gwendo as suas acomodações.

— O que ela realmente quis dizer? — perguntou Anica tolamente.

— Isso eu esclareço a você em uma outra vez — disse Uthe, um pouco irritada.

Anica não era realmente a mais sábia. Mas sua estupidez lembrou-a de Ottilie Braunhauer e piorou o humor de Uthe ainda mais. Ela duvidava que o restante da tripulação da TERSAL pudesse ajudá-las. Eles precisavam se libertar sozinhas.

Anica e Jaquine ficaram muito impressionadas com as suas acomodações. Tal esplendor, como no castelo de Próspero, elas nunca tinha visto antes. Provavelmente elas nunca tinham se banhado adequadamente antes. Uthe decidiu primeiro desfrutar de seu banho e pensar. Quando as três estavam prontas, receberam roupas finas, como todos os servos da corte usavam.

— Eu nunca usei algo tão bonito — alegrou-se Anica, que começou a aceitar seu destino.

— Gwendo disse que nós, como servas de Kamelia, teremos acesso a quase todos os lugares — disse Uthe. — Por isso nós daremos uma olhada por ai hoje à noite.

— Boa ideia — concordou Jaquine.

Anica não entendeu imediatamente o que era, mas depois Jaquine disse a ela novamente, ela parecia ter entendia também.

 

7.

Servos de Difus

 

Quando escureceu, as três saíram furtivamente de seu quarto, que fora disponibilizado apenas para elas. Guardas não eram vistos. De repente as três ouviram passos.

— Alguém está vindo — sussurrou Uthe.

Ela reparou uma cortina vermelha atrás da qual elas podiam se esconder. A terrana agarrou as duas zechonenses pelas mãos e escondeu-se com elas atrás da cortina. Pouco tempo depois, uma pessoa passou por elas. Era Kamelia. Ela entrou em uma sala no fim do corredor.

— Vamos atrás dela — sussurrou Uthe.

Cautelosamente as três foram atrás dela. Uthe esperava que elas pudessem encontrar alguma informação importante que pudesse ajudá-las. Além disso, elas precisavam se familiarizar com as instalações do castelo se quisessem escapar. Para isso, elas precisavam descobrir onde ficava o calabouço onde os homens estavam presos.

Quando as três entraram na sala, elas perceberam que a sala era completamente azul. Fora isso elas não encontraram nada no quarto. Apenas alguns caracteres estranhos podiam ser visto na parede.

— O que é isso? — perguntou Uthe as duas zechonenses.

— Eu não sei. Eu não consigo ler — admitiu Anica.

— Eu sei, mas não conheço essa escrita — disse Jaquine.

Uthe estudou curiosamente a estranha sala. No meio havia outra porta. Kamelia deve ter saído por ela.

— Vamos continuar — decidiu a terrana.

Quando as três seguiram, chegaram ao quarto ao lado. Para sua surpresa, a sala era completamente amarela, fora isso era completamente idênticas à sala anterior. Uthe achava que era uma experiência de Déjà vu. Ela já tinha visto isso em algum lugar uma vez. Mas onde?

Ali, também, não há nenhum vestígio de Kamelia. Assim como no quarto azul, havia uma porta no meio da sala. As três passaram por ela e entraram na próxima sala. Ela era completamente branca, fora isso, era idêntica a sala azul e a amarela.

— Isso está ficando estranho — achou Uthe.

Anica riu.

— Tão colorido.

— Fiquem quietas. Kamelia deve estar em algum lugar — disse Uthe suavemente.

— Eu estou ouvido alguém — disse Jaquine.

Cuidadosamente, as três foram para a próxima sala. Esta era completamente preta e escura. No meio da sala, Kamelia estava ajoelhada diante de um tipo de altar. Em um pedestal estava da estátua de uma criatura estranha e feia. Kamelia parecia adorá-la.

— Oh Difus, aceite meu sacrifício — implorou ela.

Kamelia descobriu a parte superior do corpo, depois pegou uma faca e começou a fazer cortes na carne. Há cada corte, ela gemia com prazer.

“Oh Deus, aqui estão todos loucos”, pensou Uthe, horrorizada.

Então ela descobriu que havia outra pessoa na sala. Era um homem deitado em um caixão preto aberto. Como Kamelia estava ocupada com seus impulsos masoquistas, as três decidiram ver quem estava no caixão. Uthe, Anica e Jaquine se inclinaram sobre o morto. Eles perceberam que o homem era — o príncipe Próspero. De repente, o príncipe abriu os olhos e sentou-se abruptamente.

Gritando, as três jovens correram de volta para seu quarto e se trancaram. Pelo resto da noite, elas preferiram ficar em seu quarto.

 

*

 

Na manhã seguinte, Uthe, Anica e Jaquine tiveram que servir o café da manhã para Kamelia e Próspero. Os dois não disseram uma palavra sobre a noite passada. No entanto, ainda davam para perceber em Kamelia os efeitos de suas travessuras noturnas.

— Hoje, começa nossa grande festa, para a qual convidei todos os nobres da região — anunciou Próspero. — Eu estou certo de que todos sairão de seus buracos de ratos. Certamente será muito divertido!

— Você certamente está certo, meu marido. Como sempre — concordou Kamelia.

— Suas três servas ajudarão na festa. Então elas aprenderão o que significa ser humilde — ordenou o príncipe, cobrindo as três com um olhar desagradável.

Um calafrio correu nas costas de Uthe.

 

8.

Os preparativos para a festa

 

Uthe, Anica e Jaquine estavam ocupadas o dia todo com os preparativos para a próxima festa. Elas não tiveram oportunidade de olhar mais detalhadamente o castelo.

Durante o dia, várias carruagens com nobres zechonenses chegaram ao castelo. Eles foram todos recebidos por Próspero de uma forma amigável, mas condescendente. Então, uma outra carruagem saiu da floresta enevoada com árvores nuas e parou em frente ao castelo escuro.

Uthe não acreditou no que os seus olhos viram, quando ela viu os dois cocheiros. Eram Reinhard Katschmarek e Werner Niesewitz. Gemendo Katschmarek desceu da boleia da carruagem e abriu a porta.

Majestosamente, o marquês Siniestro deixou a carruagem e caminhou em direção ao surpreso Próspero. Curvados, Karl-Adolf e Ottilie Braunhauer, bem como Eberhard Wieber e Jezzica Tazum seguiram o marquês. Ao seu lado, no entanto, estava Yasmin Weydne.

O velho espanhol usava suas preciosas roupas, que remontavam o século 18, mas lavadas e passadas a ferro. Os cabelos encaracolados estavam amarrados em uma trança. Uma jaqueta azul com muitos ornamentos e medalhas, calças brancas e meias até os joelhos e sapatos de couro envernizados com fivelas de ouro arredondavam a imagem do nobre espanhol.

Na mão direita ele segurava um bastão decorativo com um punho dourado.

O marquês curvou-se com reverência diante de Próspero.

— Nobre príncipe Próspero, sua reputação alcançou o meu país distante. Por isso, eu não podia deixar passar a oportunidade de prestar-lhe os meus respeitos.

— Estou honrado. Com quem tenho o prazer? — perguntou Próspero educadamente.

— Eu sou o marquês Dom Philippe Alfonso Jaime de la Siniestro. E esta é a minha comitiva. Meu mordomo Karl-Adolf e sua esposa, meu conselheiro Eberhard e os meus servos.

Próspero virou-se para Yasmin.

— E quem é você, minha querida?

— Esta é a minha pupila Yasmin — disse o marquês.

— Eu gostei muito dela. Você a venderia para mim? — perguntou Próspero.

A expressão de Yasmin dizia tudo. Ela olhou fixamente Próspero, em seguida, olhou para o marquês e balançou a cabeça vigorosamente.

O marquês sorriu.

— Vender? Mas por favor, meu príncipe, eu não sou nenhum mercador. — O rosto de Próspero se escureceu com as palavras de Dom Philippe. — Eu a darei como um presente para você. Para agradecer por sua hospitalidade.

Imediatamente, o rosto do príncipe voltou a se iluminar, enquanto Yasmin achou ter ouvido mal. O marquês, porém, ordenou que ela permanecesse em silêncio por enquanto. Ela entendeu e não disse nada.

— Obrigado. Você e sua comitiva são muito bem-vindos ao meu castelo. Vocês receberão os melhores quartos de hóspedes... Gwendo!

O pequeno anão apressou-se em dizer.

— Sim, senhor?

— O príncipe Tychmon deve desocupar imediatamente o seu quarto e ir para a ala sul. O marquês e sua comitiva iram desta vez para a ala oeste.

— Mas, senhor, o príncipe Tychmon não ficará muito satisfeito com isso — ponderou Gwendo.

— Isso não foi um pedido, é uma ordem!

 

*

 

Jezzica Tazum quase tropeçou no anãozinho. Naturalmente a libertação dos outros também era do seu interesse. Especialmente ela queria ver Jonathan Andrews em liberdade e ao seu lado.

Assim, o marquês, Jezzica Tazum, os Braunhauer e os três alemães foram levados para a ala oeste. Yasmin Weydner recebeu um quarto separado.

— Isso foi realmente adorável, me deu para esse sujeito nojento — queixou-se Yasmin a Dom Philippe.

— Mas minha querida, isso foi apenas uma farsa. Além disso, meu plano provavelmente foi bem-sucedido. Nós estamos no castelo. Eu vi Uthe entre as servas. Então, eles estão aqui. Tente entrar em contato com ela. Precisamos descobrir onde estão Gal’Arn e os outros.

— Espero que eles ainda estejam vivos. Este aqui é o mais puro castelo dos horrores.

— Bem, acho que aqui é muito gracioso. Isso me lembra de casa.

Yasmin estremeceu com a visão das paredes. Ela caminhou em direção de Jezzica, em compensação Ottilie Braunhauer aproximou-se arrastando os pés.

— Bem, sr. marquês, as camas aqui são muito duras! Você não pode imaginar isso! Papaizinho não conseguirá dormir bem.

— Você ficará bem. É bom que você me trate por Vossa Excelência. Deve ser usado um tom respeitoso em relação a mim, especialmente se Próspero e seu pessoal estiverem por perto.

— Ah, eu não sei. Esperemos que eu não fique tonta novamente — lamentou Ottilie.

— Nós fomos convidados para o banquete hoje à noite. Há muita coisa para comer e, especialmente, para beber — anunciou o marquês.

As pupilas de Ottilie Braunhauer se iluminaram.

— Oh, isso é bom. Nós gostaríamos de ir.

— Eu sabia disso. Então conte aos outros sobre isso. Nós nos encontraremos em minhas acomodações.

Um pouco mais tarde, todos eles estavam reunidos nas acomodações do marquês. Yasmin tinha conseguido encontrar Uthe. Uthe obviamente levou algumas bebidas para o quarto do marquês.

— Uthe, você é um colírio para os olhos, minha criança. Eu estou tão aliviado em vê-la bem — alegrou-se Dom Philippe.

— Eu nunca pensei que eu diria isso, mas eu também estou contente em ver todos vocês. Para nós em particular não está bom aqui — respondeu Uthe.

— Imagina como a gente passou mal! Especialmente o papaizinho! — protestou a sra. Braunhauer.

— Não agora! Não temos tempo para tais absurdos — repreendeu-os o marquês.

Ofendida, Ottilie Braunhauer sentou-se e ficou em silêncio.

— Obrigado, marquês — disse Uthe, aliviada.

— Onde estão Gal’Arn e os outros? — perguntou De la Siniestro.

— Eles foram levados para os calabouços, mas eu ainda não consegui descobrir onde fica.

Uthe relatou sobre Anica e Jaquine e o que elas tinham experimentado juntas. Quando ela terminou, disse ao marquês.

— Então precisamos descobrir onde eles estão presos. Yasmin, ao que parece, Próspero está de olho em você. Talvez possamos usar isso a nosso favor. Quanto mais cedo descobrir onde os homens estão presos, mais rápido poderemos libertá-los. Precisamos ter paciência e proceder com astúcia. Então talvez tenhamos uma chance.

— Formidável — disse Yasmin, revirando os olhos. A ruiva não estava impressionada com os desejos de Próspero.

De repente, houve uma batida na porta.

— Abra, Katschmarek — ordenou o marquês.

Katschmarek abriu. Diante da porta estava o pequeno Gwendo.

— O que é isso um palhaço? — disse Eberhard Wieber, divertido.

Gwendo olhou feio para ele. Quando ele estava prestes a entrar, Wieber colocou uma perna e o anão tropeçou. Os três alemães riram.

— Isso é o que acontece quando você tem pernas tão curtas — riu Wieber.

— Pare com isso! O que queres? — perguntou o marquês.

Gwendo levantou-se e fez uma reverência para o velho espanhol.

— Meu senhor pede que você compareça ao banquete. Ele será aberto em breve.

— Diga ao seu senhor que nós iremos imediatamente.

Gwendo curvou-se novamente, então ele percebeu Uthe.

— O que você está fazendo aqui? Você deveria estar no salão de festa, servindo bebidas! Por isso você apanhará de chicote — resmungou o anão, furioso.

— Eu pedi a ela, para nos servir bebidas. Isso é um problema para o príncipe? — perguntou o marquês inocentemente.

— Não, senhor — disse Gwendo timidamente.

Furioso, o Anão saiu andando com passo pesado.

— Agora, volte novamente ao seu lugar, minha criança — Dom Philippe aconselhou Uthe, que, em seguida, deixou a sala apressadamente.

O marquês voltou-se novamente para a sua “comitiva”.

— E nós agora iremos para o banquete.

 

9.

A celebração

 

Um pouco mais tarde, eles se sentaram no suntuoso banquete. Próspero servia seus convidados com abundância.

Os Braunhauer comiam pouco, mas, em contrapartida, bebiam ainda mais bebidas “alcoólicas”.

O marquês temia que eles pudessem revelar alguma coisa, mas os dois estavam muito ocupados em contar aos outros convidados sobre suas doenças e sofrimentos. No entanto, houve uma disputa com Eberhard Wieber, que por sua vez informou sobre suas enfermidades. Agora, não chegavam a um acordo de quem estava mais doente.

— Minha doença renal tem sido terrível. Minha urina estava muito escura — explicou Wieber em detalhes.

A sra. Braunhauer fez um gesto depreciativo.

— Doença da vesícula de papaizinho é muito, muito pior. Sua urina estava vermelho-escura! Ele precisa usar fraldas, porque urina constantemente — disse ela energicamente.

Agora o rosto de Karl-Adolf ficou vermelho. Por fim, Wieber se deu por vencido.

Próspero divertiu-se com os três. O marquês foi autorizado a sentar-se com o príncipe. Junto a eles sentaram-se Yasmin e Kamelia, a mulher de Próspero, que suportou silenciosamente a humilhação de ter Yasmin sentada entre ela e seu marido.

— Marquês, acho que nós dois somos muito parecidos — disse Próspero.

— Oh, sim, você me deixa lisonjeado, príncipe — disse De la Siniestro.

— Sim, sim. Você gosta de cercar-se de coisas bonitas, como eu.

Próspero apontou para Yasmin, que se esforçou para sorrir, mas interiormente ela queria gritar.

— Dá mesma forma, você se cercou de palhaços ridículos, cuja estupidez te diverte tanto quanto a mim.

Desta vez, o príncipe apontou para os Braunhauer e Eberhard Wieber, rindo ele virou uma taça de vinho após a outra.

— Bem, você olhou através de mim, príncipe — disse o marquês.

— Mas há algo que eu tenho mais do que você – poder. Poder absoluto sobre estas pessoas. Olhe para esses chamados nobres. Vou mostrar-lhe quão orgulhosos e poderosos eles realmente são.

Próspero levantou-se.

— Moredo!

A pessoa chamada, um jovem e garboso nobre levantou-se.

— Sim, meu senhor?

— Moredo, você e sua esposa, você são porcos. Então rolem como porcos!

Moredo concordou avidamente e esvaziou uma taça de vinho. Para a alegria dos outros nobres Moredo e sua esposa começaram a grunhir e rolar no chão.

— Vocês são todos os porcos, então se juntem a eles! — ordenou Próspero aos outros, que imediatamente seguiram suas ordens.

Weydner não podia acreditar no que ela via.

— Por que você está fazendo isso? — perguntou Yasmin, enfastiada.

— Para o meu prazer e o vosso. Muitas vezes, aqui é muito chato, por isso é preciso proporcionar por entretenimento. — Então ele virou-se para o velho espanhol — Eu estou muito à frente do meu tempo, mas os demais zechonenses são estúpidos, estúpidos como gado. Eu estou contente por conhecer alguém que é mais inteligente.

— Obrigado, senhor, vós me deixastes honrado — agradeceu o marquês cortesmente.

Próspero olhou penetrante para Yasmin e passou a mão sobre seu rosto. Lentamente, sua mão vagueou mais para baixo. Ela fez uma careta. A terrana detestava o príncipe com todos os poros. Ele era repugnante e totalmente antipático. Aos seus olhos, Próspero era apenas um doente louco e sádico.

— Você é linda, minha criança. Você quer ser minha esposa? — perguntou ele.

Yasmin ficou envergonhado. Desconfortável, ela olhou para Kamelia, que estava sentada impassível.

Próspero não conhecia inibições. Sua esposa não parecia significar nada para ele. Yasmin, no entanto, não sabia o que responder. É claro que ela não queria ser mulher de Próspero em nenhuma circunstância, mas tinha sido enviada — em razão de uma operação de libertação?

— Mas senhor, você já é casado — lembrou Yasmin a Próspero.

O rosto de Próspero refletiu grande surpresa novamente, como se ele próprio tivesse se lembrado de que era um homem casado.

— Sério? Ah, tá. Vamos ver.

Próspero pediu aos seus convidados, que estavam agora em alto astral, para festejarem sozinhos e se retirou com Kamelia. Aliviada, Yasmin voltou para seu quarto.

O marquês ordenou a Katschmarek e Niesewitz que levassem os bêbados Braunhauer e Wieber para seus aposentos e, em seguida, fossem para seus aposentos também.

 

10.

Kamelia

 

À noite, Kamelia voltou para a sala negra. Desta vez, ela estava sozinha. Apenas um namu, um pássaro preto de rapina que era nativo dos bosques de Zechon, estava sentado em um poste em um canto da sala. Kamelia orava para seu obscuro deus Difus, enquanto causa dor a si mesmo com uma faca.

— Oh, Difus, eu te imploro: faça-me bonita e desejável para o meu marido. Destrua essa mulher de cabelos loiros avermelhados que quer tomar o meu marido. Ajuda-me Difus!

Como se o namu tivesse entendido as palavras de Kamelia, de repente ele acordou de sua posição de repouso e voou para a mulher. Para seu horror, o pássaro a atacou. Kamelia queria fugir, mas a porta estava trancada. Alguém a trancou atrás dela.

Kamelia gritou e bateu contra a porta pesada. Mas o namu atacava incansavelmente e bicava o olho direito dela. O predador atacava constantemente com suas garras afiadas e bico afiado até que Kamelia sangrando de numerosos ferimentos, caiu no chão agonizando. Na manhã seguinte, Uthe, Anica e Jaquine a encontraram morta. O namu estava sentado pacificamente em seu poleiro.

Quando Próspero recebeu a notícia da morte agonizante de sua esposa, ele estava sentado com o marquês, Yasmin e o príncipe Tychmon à mesa do café.

— Provavelmente ela deve ter autoinfligido vários ferimentos. O sangue deve ter deixado o animal doméstico louco. Pobre Kamelia, ela estava um pouco doente — suspirou o príncipe. — Bem, a vida continua. Felizmente eu já encontrei uma nova companheira. Tenho a honra de anunciar o meu noivado com a adorável Yasmin, que em breve será a minha esposa.

Yasmin, que acabou de tomar um gole de chá, cuspiu novamente a bebida, horrorizada.

O príncipe Tychmon e o marquês felicitaram Próspero por sua decisão.

11.

A morte vermelha

 

Algumas horas depois, um oficial entrou no salão de banquetes, para entregar uma mensagem a Próspero.

— Senhor, todos os moradores, indistintamente, estão reunidos diante do castelo e pedem para falar com o senhor sobre um assunto urgente.

— O que essa corja de miseráveis estúpidos quer de tão importante? — disse o príncipe chateado.

— Mas, pelo menos, os ouça — solicitou Yasmin.

Próspero cedeu.

— Bem, por sua causa eu sairei no frio.

Próspero deu um beijo nas mãos de Yasmin e foi com seus convidados para as muralhas do castelo.

A frente do castelo, os moradores, liderados pelos anciãos da aldeia e o pai de Jaquine, Hackibrai, estavam reunidos.

— Oh, senhor, obrigado por nos ouvir — agradeceu o mais velho humildemente.

— O que vocês querem, seus animais primitivos? — perguntou Próspero, com hostilidade.

Tremendo de medo, o ancião da aldeia apresentou sua solicitação.

— Senhor, a morte vermelha chegou a nossa área. Ele visitou a aldeia vizinha. Por favor, conceda-nos proteção em seu castelo.

Por um momento Próspero ficou horrorizado.

— A morte vermelha! — exclamou ele.

Então seu rosto demonstrou novamente sinais de controle, mas seu olhar tornou-se cruel.

— Eu deveria deixá-los entrar para que vocês arrastassem a morte vermelha aqui para a minha fortaleza? – Nunca! Vocês permanecerão ai fora!

— Por favor, senhor, ajude-nos! Senão nós morreremos — implorou o camponês Hackibrai.

— Isso vocês irão. Mas eu vou ajudá-los. Vocês não morreram pela morte vermelha.

Próspero acenou para seus soldados.

— Arqueiros, matem todos eles! — ordenou o príncipe.

Imediatamente, os soldados colocaram a ordem em execução. Eles apontaram suas balestras para os aldeões, matando todos em poucos minutos. Os pais de Jaquine e Anica também estavam entre as vítimas.

Horrorizada, Yasmin começou a chorar.

— Por que você está chateada, Yasmin? Eu apenas os poupei da morte vermelha — disse Próspero com indiferença.

— Não se preocupe, aqui a morte vermelha nunca virá — disse ele gentilmente.

Yasmin prometeu acabar com aquele monstro cruel. Mesmo que fosse a última coisa que fizesse na vida.

 

*

 

Outro dia transcorreu no castelo do príncipe Próspero de Zechon. Novamente, nada aconteceu.

Gal’Arn e seus companheiros Jaktar, Jonathan Andrews e Remo Scorbit ainda estavam sentados no calabouço do castelo medieval de Zechonen. Gal’Arn refletia como ele tinha chegado a este ponto. Eles simplesmente tinham sido surpreendidos. Mas de que outra forma eles podiam ter chegado perto do observatório?

O castelo era bem guardado e de difícil acesso. Mas ainda assim eles estariam livres e permaneceriam na posse de suas armas. Mas eles estavam à mercê do despótico príncipe. Podia levar semanas, talvez até meses, até se preocuparem com eles. Talvez simplesmente se esquecessem deles.

Afinal, havia todos os dias o que comer e beber, embora apenas a comida típica de calabouço: pão e água.

— Isso é realmente o cúmulo — exclamou Jonathan Andrews, irritado.

— Por fim, nós acabaremos como o Conde de Monte Cristo.

Gal’Arn sorriu. Jonathan já havia lhe contado a antiga história terrana do Conde de Monte Cristo. Eles tiveram tempo suficiente. Não havia nada a fazer senão pensar ou falar.

A cela do calabouço era realmente como um filme de terror. Escura, úmida e coberta com palha. Os quatro faziam suas necessidades em uma privada no canto. Os guardas apenas se deixavam ver quando esvaziavam a latrina ou traziam a comida. — Ainda assim, o Conde de Monte Cristo conseguiu se libertar e se vingou — disse Remus Scorbit.

— A vingança não é a nossa meta, mas a liberdade e os dados do observatório. Além disso, temos que liberar Uthe e as duas mulheres de Zechon — cogitou Gal’Arn.

Remus abaixou a cabeça arrependido. Porque ele também podia ter pensado nisso

— Este cenário me lembra de mais um romance de Edgar Allen Poe. Lembrei-me do título. A máscara da morte vermelha ou algo assim. Por coincidência também havia um Próspero. Da mesma forma, um castelo, moradores atormentados...

Remus suspirou.

— É como se tudo estivesse encenado. Eu não consigo entender isso.

— Esse não era o filme de trivídeo onde o príncipe e o pobre mendigo voavam e lutam sobre os telhados do castelo? — acreditou lembrar Andrews.

Remus balançou a cabeça dando entender que não.

— Esse foi uma filmagem muito livre de 1255. Um filme de ação de baixa qualidade sem o fundo sombrio.

— Talvez tudo seja apenas coincidência. Shakespeare também usou uma figura chamada Próspero em “A Tempestade” — disse Jonathan e surpreendeu Remus com o conhecimento. Mas Scorbit mordeu o lábio e suprimiu uma observação cínica. Talvez fosse apenas uma coincidência, mas de alguma forma não parecia.

— Como vamos sair daqui? — perguntou Jakta, irritado.

— Nós precisamos ser pacientes e esperar. Talvez os outros encontrem um caminho. Cedo ou tarde surgirá uma oportunidade de escaparmos. Nós a usaremos — disse Gal’Arn, confiante.

Em seu íntimo, no entanto, ele não estava tão otimista. Ele sabia que os outros membros da tripulação da TERSAL eram tudo menos combatentes experientes. Realmente não parecia é muito bom para eles.

 

*

 

Enquanto os prisioneiros eram obrigados a ficar sentados no calabouço escuro, Yasmin Weydner fazia um passeio no ar fresco. O príncipe Próspero a acompanhou. Ele fez claros avanços. Yasmin precisava fazer uma boa fisionomia apesar do desagrado. Mas ela não aguentaria Próspero por muito tempo. Eles precisavam fazer algo em breve.

Além disso, a pressão interna na jovem terrana aumentou. Até há pouco tempo, ela vivia uma vida normal. Agora, ela precisava resistir a uma aventura atrás da outra. A tímida e reservada Weydner esperava não cometer erros que condenassem a operação de resgate ao fracasso. Próspero e Yasmin foram para a torre mais alta do castelo. Lá, o príncipe apontou para a paisagem árida. As árvores eram atrofiadas e a névoa cobriu a terra.

— Se você se tornar minha esposa, tudo isso também pertencerá a você — prometeu ele.

“Que beleza, isso é tudo que eu sempre quis”, pensou a jovem terrana sarcasticamente.

De preferência, ela teria dito sua verdadeira opinião a esse louco, em vez disso, ela respondeu assim: — Isso é maravilhoso, príncipe. Você é o governante mais poderoso do mundo.

Próspero concordou com a cabeça.

— Sim, eu sou. Isso provavelmente é verdade.

Um soldado subiu os degraus e saudou.

— O que é isso? Por que estamos sendo perturbado? — perguntou o príncipe, irritado.

— Perdoe-me, meu príncipe. Existem mais alguns camponeses diante do portão. Eles dizem que vieram da aldeia vizinha e que a morte vermelha chegou lá.

Próspero torceu a cara relutante.

— Mais uma vez, este bando de camponeses! Venha comigo, Yasmin.

Yasmin seguiu Próspero para outra torre de vigia, que ficava perto do portão.

Diante do portão, um grupo de camponeses se reuniu. Algumas pessoas estavam deitadas numa carroça. Eles pareciam estar gravemente doentes. Yasmin teve um mau pressentimento. Apenas alguns dias atrás, Próspero havia matado um grupo de camponeses da aldeia de onde Uthe e os outros foram raptados.

— Por favor, nobre príncipe, abra o portão e permita-nos entrar — implorou o líder do grupo, um homem idoso e magro. — A morte vermelha nos expulsou da nossa aldeia. Somente sob sua proteção nós estaremos seguros. Por favor, ajude-nos!

— Quando foi que a morte vermelha os atingiu? — perguntou Próspero.

— Há poucos dias, metade dos moradores morreu. Muitos outros estão doentes.

Yasmin olhou para o doente na carroça. Seus rostos estavam cobertos com pequenas manchas vermelhas. Eles provavelmente sofriam de uma doença semelhante a escarlatina. Com a medicina moderna, certamente seria possível ajudá-los.

No entanto, Próspero não tinha nenhuma intenção de ajudar.

— Saiam daqui. Somente porque hoje eu estou de bom humor, que eu os deixarei viver.

Atrás dos aldeões miseráveis apareceu de repente uma magnífica carruagem suntuosa. Um homem idoso corpulento, vestido com roupas finas como todos os ricos em Zechon usavam, saiu. Ele foi seguido por uma bela mulher de cabelos escuros.

— Conde Balomini — Yasmin ouvi Próspero dizer.

— Príncipe Próspero, peço-lhe que abra os portões! Eu sou um cavalheiro e não como este bando de camponeses inúteis. Nós estamos fugindo da morte vermelha. Deixe-nos entrar! — Exigiu o homem gordo, cujas bochechas estavam vermelhas, respirando pesadamente.

— Você me desafiou várias vezes, Balomini. E agora você vem rastejando e chorando por misericórdia. Não, isso não é uma opção. Fique onde está. Você se encaixa muito bem com essa escória.

O conde não se conformava com isso e ainda fez uma tentativa desesperada.

— Príncipe, eu lhe imploro! Aqui, pegue a minha esposa. Eu sei que você a deseja. Ela lhe pertence, eu a presenteio!

Yasmin estremeceu. Os zechonenses tinha uma forma repugnante de lidar com as mulheres.

— Eu não estou interessado, Balomini — recusou Próspero. — Eu já tenho uma nova esposa. E eu não acho que sua esposa é tão linda assim!

— Por favor, príncipe, reflita sobre isso — implorou o conde desesperadamente.

Próspero apanhou uma balestra.

— Dê-me uma flecha em chamas — ordenou ele a seus soldados. Uma seta foi acesa com uma tocha. Próspero colocou-a na balestra e apontou para Balomini.

— Aqui está a minha resposta, Balomini!

Com estas palavras Próspero disparou a flecha de fogo no corpo de Balomini. Pouco depois, o conde estava em chamas e queimava.

— Guardas, matem os camponeses também — ordenou Próspero.

— Não, por favor, deixem os viver! — gritou Yasmin.

Próspero olhou para Yasmin, como se fosse um ser de outro planeta, o que de fato era.

— Você é tão inocente, mas eu a levarei para o caminho certo.

Próspero ordenou que seus guardas disparassem. Pouco tempo depois, os soldados dispararam contra os camponeses indefesos que corriam como tochas vivas através da área e queimavam dolorosamente. Um pouco mais tarde o espetáculo macabro havia terminado. Todos os camponeses foram mortos, a esposa do Conde Balomini não tinha sido poupada. O cheiro de carne queimada era tão forte que a chocada Yasmin passou mal.

— Eles precisavam ser queimados, para que não espalhassem a morte vermelha — esclareceu Próspero, que notou a palidez da terrana.

Então ele bateu em sua barriga.

— Bem, agora eu estou com fome. Vamos almoçar.

 

12.

Dor

 

Dor! Dor! Dor!

Estes eram os pensamentos de Karl-Adolf Braunhauer quando ele foi acordado no final da manhã. Sua cabeça doía, seu coração e suas costas também. Além disso, suas dores de bexiga faziam-se sentir novamente. Talvez nos últimos dias ele tivesse bebido mais do que era bom para ele.

Por que ele tinha que sofrer tanto? O que ele tinha feito de errado, para estar estava tão atormentado pelas dores? Bem, ele já não era mais jovem. No entanto, ele estava firmemente convencido de que os outros não teriam sucesso sem ele.

“Sem minhas habilidades organizacionais, minha visão e as minhas ideias engenhosas os outros não teria chance”, pensou ele.

Neste meio tempo, Ottilie também acordou. Ela queixou-se novamente de tonturas. A velha terrana, no entanto, era de opinião de que seu desconforto não tinha nada a ver com a quantidade de álcool que consumiram, mas isso era devido ao mau tempo.

Durante a noite havia nevado um pouco, o que os Braunhauer relutantemente tomava conhecimento porque eles odiavam neve. Depois que os dois se queixaram em detalhes um para o outro, eles foram para a sala de jantar, onde o almoço foi servido.

O marquês, que estava sentado com Próspero, Yasmin e Jezzica Tazum à mesa saudaram os recém-chegados.

— Saudações, queridos amigos — disse ele gentilmente para eles.

O terrano idoso respondeu a saudação. De repente, Karl-Adolf tropeçou em Gwendo, que servia bebidas e não foi visto pelo terrano idoso.

— Cuidado, fedelho! — Braunhauer repreendeu o anão com hostilidade.

— Que menino malcriado — disse a sra. Braunhauer.

Irritado, Gwendo olhou para os dois.

— Eu não sou um menino! Eu sou um homem crescido!

— Você é um ridículo anão venenoso — gritou Eberhard Wieber, que também tinha acabado de chegar.

— Você precisa apreender boas maneiras. Na minha época, pequenos patifes como você não tinham nada para rir — continuou ele.

O príncipe Próspero divertiu-se com a disputa.

— Vamos fazer um joguinho. Wieber e Braunhauer entrarão no jogo, se você concordar, marquês — sugeriu ele.

O marquês sorriu e acenou condescendente.

O príncipe Próspero apontou para duas garrafas que estavam sobre a mesa diante dele.

— Estas são duas garrafas cheias de aguardente Kiva, uma especialidade de nossa terra. Quem de vocês beber primeiro a garrafa, receberá um prêmio — disse ele.

Eberhard Wieber concordou alegremente. Karl-Adolf Braunhauer não ficou muito entusiasmado, uma vez que não sentia muita vontade de beber novamente depois do último festival de bebedeira. Mas ele concordou, porque não teve coragem de discordar. Mas Ottilie interferiu.

— Papaizinho, Você não pode fazer isso. Você está velho e doente — disse ela.

— Silêncio! Claro que eu posso fazer isso — respondeu ele asperamente.

Braunhauer não queria mostrar nenhuma fraqueza diante de Wieber e dos outros. Além disso, ele também pensou no prêmio, que Próspero tinha prometido. Talvez houvesse ouro ou pedras preciosas para ganhar. A ganância era maior do que a razão.

Ofendida, a sra. Braunhauer sentou-se em seu lugar.

Jezzica Tazum contemplou com a boca semiaberta os dois velhos, que alegremente abriam as garrafas. Ela simplesmente não entendia estes dois terranos e ficou apenas enojado com eles. Embora ela também gostasse de beber e muitas vezes bebia mais do que devia, mas certamente não nesta situação perigosa.

De repente, ela olhou para a direita, porque de lá ela sentiu os olhares lascivos do marquês, que olhava para seu decote. Jezzica lançou um olhar de desagrado para ele e decidiu vestir uma jaqueta que a defendia um pouco mais das olhadelas.

— Bem então, comecem agora — ordenou Próspero e assim novamente dirigiu a atenção da terrana e do velho espanhol para os dois velhos.

Os dois velhos colocaram as garrafas de líquido transparente na boca e começaram a beber. A aguardente escorreu dos cantos de sua boca para o queixo e para mais abaixo.

Yasmin franziu o nariz para essa visão repugnante.

Depois de dois terços da garrafa já terem sido esvaziadas, Braunhauer precisou desistir. Ele deu um arroto tremendo, colocou a mão em seu coração e se sentou chateado em seu lugar.

— Eu... eu n... não posso mais — murmurou ele.

— Viu, Karl-Adolf, eu te disse — vociferou sua esposa Ottilie.

Eberhard Wieber, no entanto, esvaziou o resto da garrafa, que abriu um sorriso de uma orelha a outra.

Triunfante, ele esticou o braço direito no ar.

— Eu sou o vencedor! — gaguejou ele arrastado.

Próspero levantou-se.

— Sim, você é o vencedor. Parabéns. Agora, para seu prêmio. Como você me divertiu bem, você deverá receber algo pelo nosso divertimento — anunciou ele.

O olhar de Wieber tornou-se ganancioso. Ele esperava conseguir uma mulher bonita para si mesmo.

— Eu te dou meu bobo da corte Gwendo. Que ele possa entretê-lo tão bem, como a mim.

Eberhard Wieber fez uma careta como se tivesse mordido um limão azedo. Ele não esperava por isso. Por essas dificuldades! Mas ele não se atreveu a dizer isso a Próspero. Em seu tempo ele tinha sido educado para a obediência incondicional às pessoas consideradas superiores. Mas Gwendo deveria pagar-lhe por essa humilhação.

Karl-Adolf Braunhauer riu alegremente.

— O macaco pode ser útil. Estava nevando lá fora. Coloque ele para retirar a neve. A neve é perigosa para pessoas idosas como nós. Podemos escorregar — disse ele.

— Sim, essa é uma boa ideia — concordou Wieber.

— Vamos lá, anão, retire a neve do castelo — disse ele a Gwendo.

Este olhou para Próspero buscando ajuda.

— Por favor, senhor, não pode deixar isso acontecer. Eu era o servo da sua falecida esposa — suplicou ele.

— Wieber é agora o seu senhor e mestre. Você tem que obedecê-lo. Agora vá — recusou o príncipe.

Gwendo não tinha escolha, senão fazer este trabalho muito laborioso para ele. Ele estava à mercê de Eberhard Wieber. Quando ele quis sair, Wieber colocou novamente uma perna para ele tropeçar. Gwendo mergulhou no chão em meio as risadas dos convidados.

— Ele é estúpido demais para andar em linha reta — riu Wieber.

— Quando você terminar com a neve, você fará limpeza para mim e os Braunhauer.

Gwendo prometeu vingar-se cruelmente deste homem.

 

*

 

Este jogo foi apenas um dos muitos que o príncipe Próspero fez com os humanos. Ele dava festas suntuosas onde ele geralmente humilhava seus convidados. Apenas Yasmin e Dom Philip estavam a salvo dele.

— Amigos, vocês estão a salvo comigo. Você pode ficar no meu castelo até que a morte vermelha ter se afastado — anunciou o príncipe aos seus convidados.

Com isso ele os tinha na mão. Ninguém se aventurou fora do castelo, pois todos temiam a doença.

Mais tarde, Uthe e Yasmin se reuniram com o marquês em seu quarto. Jezzica Tazum também se juntou a eles. Ela parecia muito determinada e enérgica.

— Nós precisamos sair daqui. Eu não posso manter este lunático longe do meu corpo por mais tempo — reclamou Yasmin.

— E nós precisamos libertar Remus, Gal’Arn e os outros. Afinal, meu marido fica desamparado sem mim — disse Uthe.

Yasmin não resistiu a uma risadinha. Jezzica, por outro lado, permaneceu séria. Ela preferiria que Uthe Scorbit já tivesse um plano de libertação.

— Mas para isso precisamos descobrir onde eles estão sendo mantidos em cativeiro. Antes disso, não podermos planejar nenhuma fuga — considerou o marquês.

— E como poderemos fazer isso?

O marquês mostrou os dentes amarelos em um sorriso.

— Confie em mim, minha pombinha.

 

*

 

Um pouco mais tarde, Dom Philippe foi até Próspero que estava sentado em seu trono.

— Caro príncipe, como você está?

— Bem, obrigado, meu caro Dom Philippe. É raro que alguém pergunte sobre meu bem-estar. Você é um verdadeiro amigo — disse o príncipe alegremente.

“Por mim você podia ir para o inferno imediatamente”, pensou o marquês secretamente, enquanto sorria agradavelmente.

— Ouvi dizer que você tem que lidar com muitas preocupações. Você até mesmo foi ofendido por estranhos — disse o velho espanhol, fazendo-se de indignado.

— É isso mesmo. Quem te disse isso? — perguntou Próspero, desconfiado.

— A serva chamada Uthe. Ela me contou a história. Agora ela lamenta seu comportamento ousado.

Próspero sorriu.

— Sim, eu posso imaginar. Seu marido e seus comparsas insolentes agora estão sentados em minhas masmorras.

Dom Philippe demonstrou surpresa.

— É mesmo? Eu ainda gostaria de dar uma olhada nela. Você se importaria se eu visitar os prisioneiros e sua masmorra?

Próspero levantou-se.

— Nem um pouco, marquês. Eu guio você até lá.

Quando eles saíram, Uthe cruzou seu caminho. Ela estava carregando uma bandeja com uma garrafa de vinho e dois copos.

— Você nos acompanhe, menina. Nós certamente teremos sede no caminho — ordenou Dom Philippe.

Este procedimento foi acordado com Uthe, para que ela também memorizasse o caminho para a cela do calabouço. Além disso ela também teriam a oportunidade de ver Remus, pelo menos, por um momento.

— Uma excelente ideia, meu querido amigo.

Acompanhado por dois guardas e Uthe, Próspero levou o marquês escadas abaixo para o calabouço sombrio guardado por meia dúzia de soldados. Alguns estavam ocupados torturando um prisioneiro. Uthe estremeceu. Ela sentiu-se como em um jogo de terror. Tudo parecia degenerado. Aranhas rastejantes das fendas das paredes mofadas. Próspero parou em frente a uma sala sombria.

— Este é o meu grande orgulho, a minha câmara de tortura. Ela foi criada por meus antepassados — declarou Próspero cheio de devoção. Ele apontou para uma mesa, cuja extremidade tinha uma grande serra.

— Eu mesmo desenvolvi este dispositivo. Por meio de um mecanismo automático, a serra, que normalmente corta árvores, agora é usada para cortar pessoas em duas partes.

O marquês se fez de impressionado.

— Fantástico. Isso me faz lembrar meu castelo em casa. Lá tínhamos um pêndulo que estava preso ao teto. Que oscilava para baixo lentamente sobre a vítima, que estava amarrada no chão, até finalmente cortá-la ao meio. Isso leva mais tempo, mas é duas vezes mais divertido.

Próspero riu.

— Você realmente é um conhecedor. Você precisa incondicionalmente me informar os planos de construção para este pêndulo. Eu também preciso experimentar isso.

Um grito horripilante interrompeu a conversa profissional dos dois. O preso foi cortado pela serra naquele momento.

Próspero ficou irritado e atingiu o rosto do carcereiro.

— Seu idiota! Quem lhe disse que você deveria matar os prisioneiros sem as minhas ordens? Agora, o marquês e eu perdemos toda a diversão! — disse ele alvoroçado.

— Perdoe-me, senhor! Perdoe-me!

— Bem, eu te perdoo.

O carcereiro sorriu, aliviado.

— Sim, senhor? Obrigado!

— Em compensação você será o próximo a experimentar a serra. Mas desta vez como uma vítima — disse Próspero com uma expressão fria e impassível.

— Não, senhor! Por favor, tenha misericórdia! — exclamou o carcereiro.

Mas todas as súplicas não o ajudaram. O homem foi agarrado pelos guardas e colocado sobre a mesa com a serra, que cortou a infeliz vítima do tronco até a cabeça.

Enquanto Uthe estava a ponto de vomitar, o marquês assistia o evento com um rosto impassível. Uthe fechou os olhos para não assistir, mas os gritos do homem eram horríveis.

— Realmente impressionante, mas infelizmente um pouco curto — concordou ele.

Uthe precisava cumprimentar o velho. Ele representou o seu papel mais do que convincentemente.

Será que ele realmente apenas representou?

Ele e o príncipe sádico agora esvaziavam o vinho trazido com eles.

Próspero virou-se para um dos guardas.

— Leve-nos agora aos prisioneiros.

O guarda levou-a através de um corredor passado por várias celas.

De repente Uthe foi agarrada pelo pescoço. Ela teve que gritar e deixar cair a bandeja com o vinho. Uma criatura peluda e fedorenta a alcançou através das barras de sua cela grunhindo, ele a sufocou.

— Mulher, finalmente, tenho uma mulher — Uthe ouviu o prisioneiro decrépito pronunciar.

Da sua boca, que tinha mais buracos do que dentes, fluía mau hálito.

O marquês acorreu e bateu com a bengala, que ele sempre carregava consigo, no braço do homem peludo. Gritando, a criatura, que uma vez tinha sido um homem, soltou Uthe.

— Obrigado, senhor — proferiu Uthe a muito custo.

— Bem, afinal sou um cavalheiro — disse Dom Philippe em tom condescendente e virou-se para Próspero: — Meu caro príncipe, que criatura diabólica você tem ali?

— Oh... eu tinha esquecido completamente que eu o tranquei ali há vinte anos. Eu não sabia que ele ainda estava vivo — respondeu ele, espantado.

— Oh, isso às vezes também me acontece — disse o marquês com sinceridade.

— Pena que o vinho foi derramado. Este bastardo pagará por isso — rugiu Próspero, furioso.

— Ainda bem que nós já bebemos do bom vinho — tranquilizou-o o marquês.

Sem mais incidentes, o grupo chegou ao final do corredor. Lá se encontrava a cela com os novos prisioneiros. Próspero ordenou a um dos guardas que abrisse a porta e o grupo entrou.

— Então estes são os petulantes que ousaram ofender sua alteza. Bem, agora vocês conseguiram isso — disse o marquês de forma ambígua, quando avistou Gal’Arn e os outros.

Despercebido, ele piscou para Uthe Remus e Gal’Arn.

— Nós pedimos desculpas por isso — defendeu-se Gal’Arn, entrando no jogo. Secretamente, ele recuperou a esperança novamente.

— Essa é a única razão pela qual vocês ainda estão vivos — deixou claro Próspero. — A ênfase está no ainda — acrescentou ele com um sorriso diabólico.

— Nós não somos pobres. Nós podemos negociar — sugeriu o cavaleiro das profundezas.

— Infelizmente, isso não me interessa. Eu sou o homem mais rico do planeta. No final das festividades, vocês vão morrer. Eu apenas preciso pensar em algo divertido. Até lá, vocês ficam aqui

— Eles têm o seu valor? Eles podiam ser úteis como escravos — objetou De la Siniestro.

— Isso também seria uma possibilidade. Talvez eu simplesmente os esqueça, assim como outros prisioneiros — disse o príncipe.

Gal’Arn percebeu que o marquês deixou cair despercebidamente um pedaço de papel.

— Bom, agora eu estou novamente atraído pelo ar fresco. Este lugar fede terrivelmente — lamentou Dom Philippe.

— Você está certo. Vamos voltar.

Logo depois, Próspero, Dom Philippe, Uthe e o séquito deixaram a cela, que foi fechada novamente. Depois de alguns minutos, Gal’Arn apanhou o pedaço de papel que Dom Philippe havia deixado cair.

No bilhete lia-se:

Aguentem, amigos!

Eu estou aqui com os outros para libertá-los.

Seja paciente, nós encontraremos um caminho.

— Vejam, nós subestimamos nossos companheiros. Eles vieram para nos tirar daqui — disse Gal’Arn.

— Tomara que dê certo. Nem quero pensar no que vai acontecer se forem descoberto — gorou Jonathan Andrews.

Remus concordou com ele.

— Sim, os Braunhauer estariam conosco na mesma cela. Isso seria o fim.

 

*

 

Uthe ficou aliviada, por ter visto Remus bem e saudável. Agora eles precisavam encontrar uma maneira de neutralizar os guardas para libertá-lo e aos outros. Uma vez que os homens estivessem livres, eles podiam escapar do castelo rapidamente. Felizmente, Próspero, em um ataque de generosidade, atribuiu Uthe e as duas zechonenses Anica e Jaquine como criadas e serviçais de Yasmin Weydner.

Estava claro que o príncipe tinha escolhido Yasmin para o lugar de Kamelia. Uthe tinha certeza de que Próspero era o culpado pela morte horrível de sua esposa. Felizmente, ele tinha esquecido a razão pela qual ele tinha tomado Anica e Jaquine. Elas estavam naturalmente muito tristes que seus pais tinham sido assassinados por Próspero. Uthe tentou animá-las novamente.

— Vamos sair daqui logo. Nossos amigos da TERSAL entraram no castelo para nos libertar e aos homens.

— O que será de nós? Nossos pais e os aldeões estão todos mortos. Para onde devemos ir? — perguntou Jaquine, deprimida.

— Vocês vêm conosco para a TERSAL. Eu e Remus cuidaremos de você. Vocês deixarão este planeta sórdido — decidiu Uthe.

Anica estava emocionada.

— Oh, para o grande e vasto mundo?

— Sim, por assim dizer, para o grande e vasto Universo — concordou Uthe.

— Uau, eu nunca estive longe da aldeia. O Universo está atrás das montanhas? — perguntou Anica ingenuamente.

— Sim, Anica. Ainda mais longe.

 

*

 

Enquanto isso, Próspero dedicou-se ainda mais a Yasmin Weydner. A jovem terrana precisava se conter ainda mais para suportar a presença deste repugnante zechonense. Embora Próspero fosse um homem bonito, sua crueldade, no entanto, repugnava a Yasmin completamente.

— Querida Yasmin, em breve você será minha esposa. Por isso eu quero lhe mostrar uma coisa.

Próspero levou Yasmin pelas escadas para a ala superior, onde ficava os aposentos privados de Próspero. Ele andou com Yasmin através de alguns quartos de cores diferentes que eram completamente idênticos, exceto pela mudança de cores.

Yasmin lembrou-se que Uthe tinha falado disso para ela e que ela teve um encontro estranho com Kamelia e Próspero em uma sala preta. Foi para esta sala preta que Próspero a levou agora.

— Como é estranho, todas as salas parecerem iguais — disse ela ao zechonense.

— Elas marcam vários estágios da existência. Esta ali simboliza o estágio final.

— Percebi que em nenhum lugar do castelo há algo de vermelho.

Próspero assentiu.

— Isso é verdade. Vermelho é a cor da morte vermelha. Eu odeio essa cor. É por isso que proibi em meu castelo.

Yasmin viu uma estátua horrível semelhante a um lagarto no meio da sala.

— Este é Difus. Ele é o meu senhor e logo o seu também — disse o príncipe.

— O diabo? Nunca, eu não tenho nenhum interesse pelo culto a satanás — discordou Yasmin.

Próspero sorriu gentilmente.

— Você se prende a este fraco, chamado Deus benevolente? O que ele faz pelos fracos e doentes? Nada. Ele nem ajudou os camponeses nem protegeu os enfermos da morte vermelha. Ele é um perdedor, um nada. Ele não pode fazer nada por você.

Próspero apontou para a estátua.

— Por outro lado, Difus é forte. Ele ajuda o forte, que se afirmam e agem nos seus termos. Apenas a escuridão tem verdadeiro poder. Quem respeita Difus como verdadeiro Deus, ele recompensará generosamente.

— Mas você já é rico e poderoso

— Isso não é o suficiente. Eu preciso ser imortal. Apenas então poderei servir Difus para sempre. Um dia ele me levará e me dará a vida eterna. E então eu lutarei lado a lado com ele contra o seu Deus fraco.

Yasmin estremeceu. Parecia que um poder misterioso e obscuro emanava da estátua.

— Você fez um pacto com o diabo? — perguntou ela, assustada.

— Sim, assim como Kamelia. Eu faço sacrifícios a ele, como prova de minha lealdade inabalável. Quantas mais criaturas eu mato, mais cedo Difus me dará as boas vindas.

Yasmin sabia o que estava por vir.

— Se você será minha esposa, você também professará sua fé a ele, assim como Kamelia.

Nunca, gritou no interior de Yasmin. Mas ela não se atreveu a gritar diretamente no rosto de Próspero. Havia muita coisa em jogo. Gentilmente o príncipe a conduziu pela mão.

— Venha, ainda há um segredo que eu lhe mostrarei.

 

13.

A festa

 

Eberhard Wieber não se sentia particularmente bem, porque ele tinha bebido extensivamente na noite anterior com Niesewitz, Katschmarek e Braunhauer. Seu mau humor, ele mais uma vez descarregou em Gwendo.

— Gwendo, esvazie minha latrina, mas rápido! — gritou o terrano idoso.

Isso foi demais! Gwendo não podia aguentar mais. Ele sempre tinha sido humilhado por causa de seu pequeno tamanho corporal, mas o que aconteceu com ele nos últimos dias, foi a gota d’água para transbordar o barril. Ele decidiu se vingar de seu algoz. Wieber subestimou sua inteligência, isso lhe custaria caro!

O príncipe Próspero havia convidado todos para uma festa de fantasias naquela noite. Gwendo decidiu usar esta circunstância para seus propósitos. Talvez Próspero o levasse de volta ao seu serviço, se seu plano para se livrar de Wieber fosse bem-sucedido. O príncipe tinha respeito por ideias inovadoras.

Gwendo arranjou um traje para Wieber e depois voltou para ele.

— Onde é que você estava metido de novo, seu anãozinho estúpido? Lá em casa, colocariam algo como você no jardim da frente — disse o terrano idoso, irritado.

— Perdoe-me, senhor. Eu estava arranjando um traje a fantasia para você — desculpou-se Gwendo.

O rosto amarelo e enrugado de Wieber, cercado por bolsas sob os olhos e rugas, fez uma expressão de espanto.

— Festa à fantasia? Que festa a fantasia?

Gwendo explicou a ele.

— Sua Alteza, o príncipe convidou para uma festa a fantasia hoje à noite. Naturalmente, todos os convidados de honra estão incluídos. Como você é um homem tão importante, nós não podemos faltar a ela.

Isso naturalmente convenceu Eberhard Wieber.

— É isso. Portanto eu naturalmente preciso estar lá. Tenho que tomar uma para comemorar.

Wieber foi até a mesa e serviu-se de um conhaque, que ele esvaziou com um gole.

— E que fantasia você arranjou para mim? Como um nobre, um cavaleiro ou Tarzan? — perguntou ele.

— Muito melhor. Um goro.

— Um o quê? — perguntou Wieber, intrigado.

— Espere, eu vou lhe mostrar.

Gwendo trouxe uma caixa de papelão e tirou o conteúdo. Era uma fantasia de macaco.

Isso Wieber não esperava.

— Isso é um macaco! Eu deveria ir como um macaco! Espere, você...!

Wieber preparou e desferiu um tapa em Gwendo. O anão caiu com violência no chão.

— Pare, senhor! Aqui para nós um goro é um símbolo de força e potência sexual. Você será a atração da noite — explicou ele ao terrano furioso.

Wieber acalmou-se. Ele voltou para a mesa e bebeu mais um copo de conhaque.

— É isso. Você quer dizer, que aqui isso é algo especial? — perguntou ele suavemente.

— Sim, senhor. Especialmente as mulheres cairão aos seus pés. Imagine apenas, quando você entrar no salão, todos os olhos estarão em você. Você representa um goro selvagem e conquista uma mulher atraente para você.

Isso surtiu efeito no velho. Ele não tinha uma mulher há muito tempo. Essa era uma oportunidade bem-vinda.

— Tudo bem. Eu irei como um macaco, ah, goro.

Gwendo triunfou. Wieber era ainda mais estúpido do que ele tinha pensado. Ele o tinha agarrado por sua vaidade e sua vontade de acasalar. O anão riu interiormente. Como os homens eram estúpidos. Se a perspectiva de uma mulher os atraia, eles rapidamente se faziam de macacos.

 

*

 

Enquanto isto Próspero levou Yasmin à ala oposta. Lá, eles entraram em uma grande torre. Um enorme telescópio se destacou da cúpula da torre.

Este devia ser o observatório estelar que eles estavam procurando. Yasmin observou cuidadosamente os arredores. A torre não se encaixava no estilo de construção do restante do castelo. Ela parecia estar mais bem conservada, embora devesse ser mais velha do que o castelo. Dentro da sala havia uma estação de localização preservada. E ela funcionava! Uma positrônica cuidava da operação automática do sistema. Provavelmente, todos os dados estelares eram coletados e armazenados no sistema. Talvez as coordenadas de Dorgon ou, pelo menos, os valores comparativos para orientar em que parte do Universo estavam!

— Isso é fantástico! — Yasmin fez-se de espantada diante de Próspero.

— Sim, é uma maravilha. Foi construída por seres alienígenas que vieram de outro planeta, muitos anos atrás. Estes seres provavelmente estão mortos, mas seu investimento ainda está funcionando. Infelizmente, eu não consigo entender ou usar a tecnologia alienígena corretamente. Ninguém neste planeta pode fazê-lo.

Yasmin julgava-se capaz de familiarizar-se com esta tecnologia. Com a ajuda de Gal’Arn devia ser possível encontrar as coordenadas que eles queriam — se elas estivessem armazenadas.

— Um dia Difus nos mostrará como podemos operá-lo. Então teremos poder total e o usaremos para sua glória — disse Próspero, evocativo.

Para Yasmin, este louco fanático se tornava cada vez mais sinistro. Ela não podia suportar a presença dele por muito tempo. Próspero caminhou até ela e beijou-lhe a mão.

— Hoje à noite, durante a realização do baile de máscaras, eu darei conhecimento de nosso casamento iminente. Então, você pertencerá a mim e, portanto, também a ele.

 

14.

Passando-se por macaco...

 

Com muito esforço Eberhard Wieber conseguiu entrar no traje de macaco. Sem a ajuda de Gwendo ele não teria conseguido isso. Cético, Wieber se olhou no espelho.

— Você realmente acha que este traje de fantasia afetará as mulheres?

— Oh, sim, senhor. Especialmente as jovens atraentes. Na nossa região, as mulheres adoram homens mais maduros. Em sua fantasia você encarna o erotismo concentrado — mentiu Gwendo.

Wieber examinou a cabeça de macaco e olhou seu rosto enrugado no espelho.

— É isso. Bem, eu estou ansioso para esta noite. Infelizmente, é tão quente no traje.

“Em breve ficará ainda mais quente para você, seu tolo”, pensou Gwendo, furioso.

— Você precisa fazer um pequeno sacrifício por uma mulher bonita. Eu acompanharei você. Eu me disfarçarei como seu domador, um homem de um país distante que domou a besta — disse ele.

— É isso aí. Se você se comportar bem, como recompensa eu vou levá-lo comigo para casa, quando for embora.

Gwendo concordou obedientemente. Ele pressentia cada vez mais que havia algo de errado com Wieber, o marquês e os outros. Provavelmente eles estavam mancomunados com os estrangeiros que haviam sido capturados recentemente. Mas Gwendo ficou em silêncio, para se vingar de Próspero que lhe havia infligido esta humilhação.

 

*

 

— Eu não aguentarei isso por muito mais tempo! Este homem está louco — reclamou Yasmin de seu sofrimento.

Ela, Uthe, Jezzica e o marquês tinham se reunido no quarto de la Siniestro para discutir como agiriam.

— Você precisa aguentar. Pela vida de todos nós — encorajou-a Uthe.

— Não se preocupe, de qualquer forma não podemos esperar mais tempo. Hoje à noite, durante a festa a fantasia, nós atacaremos — decidiu o marquês.

— Este é o momento certo? — perguntou Uthe, cética.

— De qualquer forma, minha criança. Todos ficarão bêbados novamente. Agora conhecemos o caminho para o calabouço e sabemos onde Gal’Arn e os outros são mantidos em cativeiro. Você, Uthe precisa certificar-se de que os guardas bebam o suficiente. Este é um velho estratagema. Quando os franceses ocuparam o nosso Siniestro, embebedamos a guarnição e depois os dominamos. Seu homem de metal me deu algumas pílulas para dormir.

— Você quer dizer o robô médico? Essa foi uma boa ideia. Uthe pode misturar no vinho dos guardas — sugeriu Yasmin.

— Anica e Jaquine me ajudarão — disse Uthe. — Vamos levá-las conosco, quando formos embora.

— Eu também ajudarei — disse Jezzica, colocando as mãos nos quadris.

— Mais duas moças bonitas a bordo. Que beleza — alegrou-se o marquês.

— Não se atreva a tocá-las, caso contrário, você terá que se ver comigo — protestou Uthe.

Embaraçado, o marquês virou-se para o seu baú, que ele tinha trazido como bagagem.

— Bem, voltando a falar da fuga. Nós ainda trouxemos algumas das nossas pistolas modernas.

Yasmin passou entre os dois.

— Cuidado, marquês, caso contrário, você ainda se machuca.

— Uau! Eu sou um atirador de pistola experiente! Seja com balas ou com esses raios de fogo, isso não faz nenhuma diferença.

Yasmin apanhou uma dúzia de radiadores de agulhas da caixa. Ela deu alguns deles para Uthe e Jezzica

— Esconda-os o melhor que puderem. Gal’Arn e os outros poderão precisar muito deles.

Yasmin manteve consigo um pequeno radiador.

— Este eu vou levar comigo, caso este príncipe louco chegue muito perto mim — disse ela, determinada.

Uthe concordou com a cabeça. Uthe ficou agradavelmente surpresa com o vigor de Yasmin. A terrana normalmente tranquila e reservada cresceu além de si mesma.

— Bem, eu informarei Anica e Jaquine para que possam me ajudar — disse ela.

— Então eu falo com os Braunhauer, assim como Wieber, Katschmarek e Niesewitz — disse Dom Philippe.

— Você acha que eles podem lidar com as armas? — perguntou Yasmin cética.

— Pelo menos os três alemães. Eles disseram que tinham servido no exército alemão da 2ª Guerra Mundial, o melhor exército de todos os tempos de acordo com suas declarações. Confesso que no meu tempo os soldados prussianos sempre foram perigosos e peritos da arte da guerra. Eles devem ser capazes de lidar bem com armas.

— Sob sua responsabilidade, marquês.

— Teremos sucesso. Os outros precisam saber, para que possam estar prontos quando começar. À meia-noite, o álcool já deverá ter feito o seu trabalho. Então nós atacaremos.

Enquanto Uthe Scorbit e Jezzica Tazum colocavam Anica e Jaquine a par do plano, de la Siniestro entrou no quarto dos Braunhauer, onde também estavam Katschmarek e Niesewitz. Os quatro tinham várias garrafas de álcool e cerveja meio vazias sobre a mesa. Eles usavam fantasias medievais que haviam feito para o baile de máscaras. E já estavam no melhor clima de festa.

— Chega de bebidas! — ordenou o marquês severo.

— Hoje à noite nós libertaremos os prisioneiros, por isso chega de álcool por hoje.

— O quê? Ironicamente, na festa? Mas isso não é justo — protestou Katschmarek.

— Precisamente por causa da festa, este é o ardil que eu pretendo.

O marquês explicou seu plano para os outros, então ele retirou três radiadores de seu casaco e colocou-os sobre a mesa. Ele selecionou-os com a menor potência de fogo. Devido ao hipnotreinamento de la Siniestro sabia que os desintegradores ou radiadores térmicos podia fazer mais do que o poder de fogo de toda a Armada Espanhola. Ele não queria arriscar que um dos tolos explodisse todo o castelo.

— Aqui, são para você. Uma vez que é uma festa à fantasia, elas não parecerão mais incomuns para os moradores.

Nos olhos de Katschmarek e Niesewitz, surgiu um brilho alegre.

— Armas! Armas certas para festa! Isso é ótimo! — alegrou-se Reinhard.

— Vocês realmente sabem manejá-las? — certificou-se o marquês.

Werner Niesewitz bateu vigorosamente com um pé no chão.

— Claro! Nós somos veteranos da 2ª Grande Guerra Mundial! Nós fomos soldados do glorioso exército alemão que quase subjugou o mundo inteiro.

— Por isso eu concluo que vocês perderam a guerra.

— Sim, mas apenas no final — objetou Katschmarek.

O marquês notou que alguém estava faltando.

— Onde está Wieber? — perguntou ele.

— Ele está ocupado com seu traje e não quer ser incomodado hoje — explicou Niesewitz.

— Este burro! Se ele perder o contato, ele teve azar. Bem, nós ainda temos uma arma sobrando.

Don Philippe virou-se para Karl-Adolf Braunhauer, que estava sentado em sua cadeira com uma expressão cética e de sofrimento, e nervosamente arrastava com o pé direito para frente e para trás.

— E quanto a você, Señor Braunhauer? Sua esposa disse que você também é um veterano de guerra.

— Sim, naturalmente, o meu marido estava com os carneiros e foi soterrado pouco antes do fim da guerra — interveio Ottilie Braunhauer.

— Com os ÁRIES, Ottilie com os ÁRIES — corrigiu Braunhauer.

— De qualquer forma, você foi soterrado e ficou gravemente ferido! Isso afeta meu marido até hoje! Você não pode imaginar, sr. marquês — respondeu Ottilie melindrada e encheu totalmente um copo de aguardente, que ela esvaziou prontamente.

— Eu estava na organização de resistência ÁRIES durante a ditadura de Monos. Nós tivemos que lutar contra seres que eram a metade de metal. Ah sim, eles eram chamados cantaros. Nos últimos dias da guerra eu fui soterrado.

— Terrível, em uma casa? — perguntou Dom Philippe com compaixão.

— Não, pelos meus companheiros. Eu fui o primeiro a pular em uma cratera de granada, infelizmente, outros vinte homens vieram em seguida e pularam em cima de mim. Foi horrível.

— Bebemos uma por isso — gritou Katschmarek.

— Eu já disse que parassem de beber! — protestou Dom Philippe, furioso. Intimidado, Katschmarek soltou a garrafa.

— Desmancha-prazeres — murmurou ele.

O marquês voltou-se para Braunhauer.

— Então você pode manejar com essas armas modernas? — perguntou ele.

— Sim, naquela época eu também usava uma dessas.

— Bom, então tome essa terceira pistola de fogo.

O marquês colocou-a diante de Braunhauer sobre a mesa.

— Melhor não, papaizinho, você ainda vai se machucar. Mas não sabe mais com usar esta, esta... eu não entendi a palavra — interveio Ottilie novamente.

— Silêncio, Ottilie! Eu posso fazer tudo — recusou seu marido duramente.

Gemendo Braunhauer se levantou e fez uma continência para o marquês.

— Se a pátria me chama, eu estarei a postos — disse ele pateticamente. — Mas primeiro eu preciso ir ao banheiro. No momento minha bexiga me chama.

“Isso pode ser divertido. Pois quem contaria com o fato de que esses idiotas lançariam um ataque surpresa”, pensou Dom Philippe.

A voz irritante de Ottilie Braunhauer arrancou o marquês de suas reflexões.

— Ah, talvez alguém podia me explicar o que é tudo isso.

 

15.

O baile de fantasia

 

À noite, finalmente, começou o grande baile de fantasia. Próspero queria que este fosse um destaque inesquecível das festividades. Ele também seria.

Todos os hóspedes estavam reunidos. Uma banda tocava sons medievais, aos quais os hóspedes dançavam avidamente. Todas as fantasias foram autorizadas. Somente a cor vermelha era estritamente proibida por Próspero.

O marquês e Yasmin receberam os lugares de honra ao lado do príncipe. Enquanto o marquês tinha mandado fazer outro modelito do século 18, Yasmin vestia seu habitual traje de bordo, que ela fez se passar como uma fantasia.

— Que fantasia interessante. Uma mulher de calças, eu nunca tinha visto antes — disse Próspero, maravilhado.

— Eu fico feliz que você gostou, príncipe — disse a terrana diplomaticamente.

O marquês olhou ao redor.

Ele procurava pelos Braunhauer. Com desgosto ele viu que Ottilie Braunhauer não parecia se importar com sua estrita proibição de álcool. Karl-Adolf, no entanto, mantinha-se firme e se contentava com água mineral, que ele justificava com o seu problema de bexiga. Niesewitz e Katschmarek não podiam ser vistos por Dom Philippe. Eles deviam estar a postos nas proximidades

Então ele descobriu Uthe. Ao lado dela estava Jezzica Tazum, que usava uma roupa amarela muito sexy, que consistia de um shorts muito curto e um top que deixava barriga descoberta. Muitos homens a cobiçavam. Obviamente, isso era uma tática, porque com esta roupa ela certamente podia distrair os guardas.

Discreto, ele acenou para ela. Jezzica, Uthe e as zechonenses deviam começar a fornecer vinho aos guardas da prisão.

*

 

— Vamos lá, vamos andando — disse Uthe para Anica e Jaquine.

Jezzica levava uma bandeja com várias canecas de vinho e foi com as outras três para as masmorras.

— Primeiro os guardas na masmorra recebem o vinho com os comprimidos para dormir. Então nós nos ocupamos dos outros. Infelizmente, o resto, nós precisaremos resolver pela força das armas.

— Sem problema — sorriu Jezzica. A sensação de segurar uma arma na mão, de alguma forma até lhe agradava.

As três pegaram suas bandejas com as jarras de vinho e seguiram Tazum. Elas queriam descer as escadas para o calabouço, quando de repente alguém com uma voz severa gritou:

— Parem!

Era o príncipe Tychmon, com quem elas tiveram um encontro desagradável há alguns dias.

— Onde vocês estão indo? — perguntou Tychmon, malicioso.

— Nós levamos um pouco de vinho para os guardas. O príncipe Próspero quer que eles também tenha sua alegria — disse Uthe.

— Então ele provavelmente se tornará sentimental na sua velhice. Bom demais para esta escória.

Tychmon cheirou um caneco de vinho.

— Eu também quero beber um pouco disso. Primeiro eu experimento o vinho, em seguida vocês.

Uthe, que já havia colocado o sonífero nos frascos reagiu imediatamente.

— Mas com prazer, senhor. Prove o delicioso vinho. E quando terminarmos nosso trabalho, nós o visitaremos.

— Bom, eu quero que todas vocês quatro venham ao meu quarto. Agora me dê uma bebida. Eu estou com sede — disse o príncipe.

Tychmon agarrou os quadris de Jezzica e olhou para seu decote. Ele tomou um pouco de vinho e derramou-o em seu decote. Jezzica estremeceu brevemente quando o frio molhado tocou sua pele. Com a mão esquerda, ela levou a mão esquerda ao seu radiador, mas Uthe por sua vez colocou a mão na de Jezzica e mandou-a parar.

Relutante, a terrana entrou no jogo dele. Ela agarrou Tychmon e beijou-o nos lábios. O príncipe ficou animado.

Jezzica deslizou para baixo lentamente para suas pernas e sorriu para ele significativamente. Uthe e as duas zechonenses observaram este espetáculo, sem saber o que Tazum almejava com isso.

De qualquer forma, Tychmon apreciou essa apresentação. A loira terrana abriu as calças do príncipe, em seguida, ela apanhou um copo de vinho e derramou-o em suas calças.

Tychmon recuou e empurrou Tazum, que não conseguia parar de rir, para longe dele. Uthe estava pouco entusiasmada com o fato.

— Sua vadia — amaldiçoou o zechonense em voz alta.

Jezzica estava próxima de puxar o radiador novamente, mas Uthe interveio.

— Perdoa-a, senhor! É parte de suas emocionantes preliminares, se você entender. Por favor, tome um copo de vinho para tranquilizar.

Uthe encheu até em cima um copo para ele. Ganancioso, o homem obeso bebeu.

Em seguida sua expressão se animou.

— Eu espero que você seja melhor na cama do que este vinho. Eu espero por vocês em meus aposentos.

“Você terá uma longa espera”, pensou Uthe.

Quando Tychmon finalmente tinha ido, as quatro foram para o calabouço.

— O que foi isso? — quis saber Uthe Scorbit de Jezzica.

— O quê? Esse miserável merece uma surra. Eu preferia ter enfiado meu joelho nas partes baixas dele em vez de jogar vinho!

Uthe balançou a cabeça negativamente.

— Você não está pensando em a nossa operação de resgate? — perguntou ela.

Jezzica Tazum ficou em silêncio. Ela sabia que tinha exagerado um pouco. Mas isso era uma de suas falhas de caráter. Ela era uma mulher muito impulsiva.

— Tenha cuidado. Há criaturas perigosas aqui em baixo — advertiu Uthe as duas meninas zechonenses e a terrana. O encontro desagradável com o homem cativo no dia anterior, ainda era uma recordação desagradável para ela.

 

*

 

Eberhard Wieber olhou-se no espelho e estava bastante satisfeito com o resultado.

— Temos que ir agora, senhor. O baile de fantasias está em pleno andamento — lembrou Gwendo.

Wieber deu a entender que não.

— Sim, sim, agora não seja tão barulhento, seu pequeno gnomo. Eu ainda decido quando vamos. Você acha que eu estou bem apresentável?

— Esplêndido, senhor. Simplesmente magnífico. Todas as mulheres ficarão apaixonadas.

Wieber sorriu satisfeito. Na verdade, ele parecia simplesmente ridículo.

— Sim, eu acredito nisso também. Reine e Werner ficarão pálidos de inveja.

Gwendo entregou a cabeça do macaco a Wieber. Após o velho ter bebido uma bebida, ele colocou-a.

— Você precisa rugir e grunhir para parecer real — sugeriu Gwendo.

Wieber fez alguns sons estranhos e balançou de um lado para o outro.

— Fantástico! Simplesmente de meter medo!

— Então vamos — disse Wieber.

 

*

 

Uthe Scorbit, Jezzica Tazum, Anica e Jaquine chegaram ao calabouço. Lá, seis homens estavam de guarda. Cinco deles estavam sentados em uma mesa jogando cartas. O sexto, que estava armado com uma lança, aproximou-se delas.

— O que vocês querem aqui, servos? — ele perguntou austeramente.

Agora, Jezzica voltou a tomar a iniciativa. Ele não poupou seus encantos e sentou-se no colo do comandante.

— Todos lá em cima na festa estão comemorando e vocês aqui trabalhando duro. O príncipe pensou que deveríamos animá-los — explicou ela, acariciou com o dedo indicador sua barba emaranhada. Um arrepio decorreu-lhe a espinha com a visão dos lascivos zechonenses, mas ela se controlou.

Uthe apresentou aos guardas a sua bandeja com as jarras de vinho e copos e sorriu amigavelmente.

— Nós trouxemos-lhes um vinho delicioso. Sua Alteza, o príncipe, espera que vocês também se divirtam.

O soldado cheirou avidamente o vinho.

— Eu gostei dele. Ei, pessoal, há vinho para nós — gritou ele para seus companheiros.

Naturalmente estes ficaram muito satisfeitos. Anica e Jaquine também exibiram seus jarros e canecas. Imediatamente os soldados se lançaram sobre elas.

Quanto as três se viraram, um dos soldados gritou: — Ei, meninas, fiquem aqui e comemorem com a gente.

— Infelizmente, já somos convidadas em outra festa. Mas, mais tarde voltarem e ficarem com vocês — assegurou Uthe inocentemente.

Então Jezzica levantou-se e deu ao soldado um beijo de despedida que tinha um gosto repugnante.

— Estaremos de volta, eu prometo, meu soldado heroico. Então eu quero sentir sua espada...

Ela sorriu e piscou. O soldado abriu um largo sorriso e acenou com uma mão, na outra mão segurava a taça de vinho.

Mal Jezzica se virou, congelou o sorriso e cuspiu no chão, para retirar o gosto enjoativo e rançoso de seus lábios.

Todas respiraram aliviadas quando deixaram o calabouço. Apenas Anica parecia ainda não ter entendido o que estava acontecendo. No entanto, ela seguia obedientemente todas as instruções.

— Em cerca de uma hora eles dormirão profundamente, então nós iremos lá embaixo. Até lá, distribuiremos o máximo de vinho possível para os outros guardas — instruiu Uthe as duas zechonenses.

— Nós faremos isso, você pode confiar em nós.

— Espero que o vinho também cause efeito — expressou Jezzica com uma expressão preocupada.

 

16.

Goro flamejante

 

O clima da festa aumentava constantemente. O álcool fluía livremente. Próspero observava com interesse na libertinagem de sua festa.

— Eles são como animais primitivos — disse ele para Yasmin.

— Isso eu não posso discordar — respondeu ela.

Próspero sorriu alegremente.

— Logo você será a soberana deles e minha esposa.

“Somente sobre o meu cadáver”, pensou Yasmin. Mas ela sorriu e respondeu: — Certamente, meu venerado príncipe.

A atenção dos dois foi dirigida para uma fanfarra retumbante. Então Gwendo entrou. Ele segurava uma corda, na ponta ela estava pressa a um macaco preto de aparência estranha. Eberhard Wieber em ação.

— Senhoras e senhores! Peço sua atenção! — gritou Gwendo.

— Eu quero apresentar-lhe goro, a besta selvagem da terra além das florestas!

Eberhard Wieber decidiu desempenhar seu papel muito bem e começou a grunhir e tamborilar furiosamente no peito. Mas ele exagerou e teve um ataque de tosse.

— Este é Eberhard, reconheço-o pela tosse — disse a sra. Braunhauer ao seu marido.

Este agarrou seu peito e tossiu de forma demonstrativa.

— Eu acho que eu também estou tendo um acesso de tosse — lamentou ele.

Enquanto isso, Wieber correu pelo salão e perseguiu senhoras bem-proporcionadas que fugiram rindo e gritando na frente dele. Gwendo que segurava a corda, andava atrás dele com passos pequenos e rápidos, e gritava com voz irritante:

— Tenha cuidado! Cuidado com Eberhard Wieber, o monstro da selva!

Como Wieber estava sem fôlego, ele teve que parar.

— Eu não posso mais. Eu preciso tomar fôlego — lamentou ele bufando.

— Naturalmente, senhor. Descanse um pouco. Daqui a pouco tudo vai ter passado — sussurrou Gwendo obviamente amável, mas, na verdade, ele tinha maquinado um plano diabólico para matar Wieber. O velho não percebeu que Gwendo envolveu uma corda em volta de sua cintura. A outra extremidade o anão prendeu a uma roda que pendia no teto como decoração e podia ser abaixada e levantada com uma polia.

— O que você está fazendo, anão? — perguntou Wieber, despreocupado.

— Eu estou preparando a próxima atração para os hóspedes. O seu fim — gritou Gwendo, mal-intencionado.

Antes que Wieber percebesse o que estava acontecendo, Gwendo trouxe uma tocha em chamas e acendeu o traje de macaco com ela. Em pouco tempo a fantasia de pele estava em chamas.

Wieber chorava e se agitava, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, o anão colocou a polia em movimento. Wieber, pendurado pela corda na roda, foi puxado para cima. Contorcendo-se e gritando, ele balançava em chamas sob o teto de pedra. Nenhum dos zechonenses interveio.

Pelo contrário, os homens e mulheres nobres estavam em pé ao redor gritando, rindo e divertindo-se com a terrível morte do velho. O marquês, Katschmarek e Niesewitz acorreram, mas já era tarde demais. Wieber foi queimado pelo traje do macaco em pouco tempo. Gwendo levantou os braços em triunfo.

— Essa foi a minha vingança! — gritou ele.

Yasmin ficou imóvel na mesa, segurando as mãos na frente do rosto. Ela estava perto das lágrimas. Mas Próspero parecia se divertir.

O marquês balançou a cabeça com descrença. Como isso pode ter acontecido?

— Eu protesto, príncipe! Wieber era um dos meus! — gritou ele, furioso.

Mas Próspero permaneceu calmo.

— Não fique bravo com isso, meu caro amigo. Vou compensá-lo por isso. Foi muito divertido. Wieber foi, sem dúvida, a principal atração da noite. Como Gwendo me entreteve bem, eu vou perdoá-lo novamente.

Por razões táticas, o marquês decidiu fazer uma boa cara apesar do desagrado. Além disso, Wieber já estava além da ajuda.

— Como quiser, príncipe.

— Vamos tomar uma bebida. Gwendo, certifique-se de que os restos mortais deste goro sejam removidos! Está começando a cheirar mal.

De fato, o cheiro de carne queimada tinha se espalhado por toda a sala.

Incrédulos, Dom Philippe, Katschmarek, Niesewitz e os Braunhauer observaram quando os restos carbonizados de Wieber foram retirados do teto.

— Adeus, Eberhard, velho amigo bêbado — disse Katschmarek com uma voz triste.

— Este anão vai se arrepender — chiou Niesewitz.

— Desta vez Wieber teve um sofrimento pior do que vocês — disse o marquês aos Braunhauer.

— Oh, também é tão quente para mim — gemeu Ottilie.

 

17.

A libertação

 

Enquanto no salão, a festa continuava alegremente, apesar da morte de Eberhard Wieber, Uthe, Jezzica, Anica e Jaquine voltaram sorrateiramente para o calabouço.

— O sonífero já deve ter feito efeito — disse Uthe as outras.

Quando entraram na sala da guarda do calabouço, elas viram quatro guardas sentados em seus lugares roncando. Um estava no chão. Todos dormiam profundamente.

Jezzica suspirou, aliviada.

— Há apenas cinco. Um está faltando — observou Jaquine preocupada.

— E ele deve ter a chave. Em todo o caso, ele não está aqui — disse Uthe.

— Merda, é o comandante com lábios de sabor rançoso — afirmou Tazum rispidamente.

A terrana puxou seu radiador.

— Vocês ficam aqui e observam os guardas — sussurrou ela para Jaquine e Anica.

Uthe Scorbit decidiu também apanhar seu radiador térmico e seguir Jezzica. Ela apressou-se em ir atrás da terrana, até chegarem a porta. Jezzica fez um gesto com a mão para ela ficar quieta.

Determinadas, elas entraram no corredor que levava à cela dos prisioneiros.

Lá, as duas mulheres terranas encontraram o sexto guarda. Ele estava deitado em frente de uma porta de cela aberta. Cautelosamente Jezzica examinou o homem. Ele estava morto. Mas não era por culpa do sonífero. O soldado tinha sido estrangulado.

Tazum fez um gesto impotente em direção a Scorbit.

Antes que Uthe pudesse pensar alguma coisa, ela foi agarrada pela grande mão peluda de um homem.

— Mulher! Finalmente tenho uma mulher — resmungou o homem.

Uthe gritou. Era o mesmo monstro que a tinha ameaçado no dia anterior.

A terrana não conseguiu disparar seu radiador no prisioneiro, porque o monstro, cujos cabelos densos lembravam um lobisomem de um filme de horror, arrancou-lhe a arma da mão. Então ele empurrou Uthe para o chão e atirou-se grunhindo sobre ela.

— Jaquine, Anica! Socorro! — gritou Uthe.

Rapidamente as duas vieram correndo.

Anica começou a gritar histericamente e correr de um lado para outro.

— O que devemos fazer? — perguntou Jaquine.

Uthe descobriu que o molho de chave que ela procurava, estava preso na fechadura da porta da cela.

— Pegue a chave e liberte os homens! Rápido! É a cela no final do corredor — gritou ela desesperadamente.

O demônio começou a rasgar o vestido de Uthe. Agora Jezzica também interveio. Ela apontou primeiro para o atacante, mas o perigo de atingir Uthe era muito grande. Então, ela se jogou sobre ele e agarrou o pescoço dele com os dois braços. Mas o prisioneiro muito forte se livrou dela. Jezzica bateu bruscamente contra a parede. O impacto tirou-lhe o fôlego por alguns instantes.

Jaquine pegou as chaves. Então ela correu pelo corredor e tentou abrir a porta da cela. Levou alguns instantes até encontrar a chave certa, então abriu a porta pesada. Gal’Arn, Jonathan Andrews, Jaktar e Remo Scorbit vieram ao seu encontro. Remus ouviu Uthe gritar.

— Onde está Uthe? O que ela tem? — perguntou ele a Jaquine.

— Ela está sendo ameaçada por um monstro! Ajude-a! — gritou a zechonense.

Os homens rapidamente correram para a cela. Juntos, eles conseguiram derrubar o louco raivoso de cima de Uthe. Mas o homem resistia com a força de um possuído. Ele derrubou Jonathan e Jaktar.

Rugindo o louco atacou. Espumando pela boca. Remus descobriu o multirradiador que Uthe tinha perdido e paralisou o enfurecido.

Remus ajudou Uthe a levantar e abraçou sua esposa.

— Você está bem, Uthe? — perguntou Remus, preocupado.

— Ele quase me estuprou. Ele era como um animal selvagem. Para minha sorte você chegou a tempo.

Uthe torceu o nariz e deu distância para seu marido.

— Você está fedendo, meu querido. Você precisa tomar uma ducha urgente.

— Infelizmente, não havia essa instalação moderna em nosso estabelecimento — disse Remus, ofendido.

— Onde estão os outros? — perguntou Gal’Arn interrompendo o casal.

Uthe contou a ele o que tinha acontecido. Remus confirmou sua teoria. Os eventos lembravam os romances de Edgar Allan Poe. O terrano não acreditava em coincidência.

— Como acaba a história? — quis saber Jaktar.

— No final a morte vermelha virá e levará todos eles.

Jaktar não ficou entusiasmado com este desfecho.

Uthe voltou a falar.

— Eu sei onde fica o observatório estelar que estamos procurando. Próspero mostrou para Yasmin e ela descreveu o caminho exatamente para mim. Ele está localizado no topo da maior torre do castelo.

Uthe foi até uma cesta que ela tinha trazido consigo e retirou os radiadores térmicos que ela tinha escondido ali.

— Excelente trabalho, Uthe. Agora vamos sair daqui — elogiou Gal’Arn.

Jonathan ajudou a atordoada Jezzica e a abraçou.

— Antes de ir buscar os outros, vamos ao observatório localizar os dados de Dorgon, se eles estiverem lá — disse ele.

Gal’Arn concordou com a cabeça e indicou para deixarem o calabouço rapidamente.

 

*

 

No grande salão de baile a celebração continuava. O álcool fluía livremente e as senhoras nobres mal podiam resistir aos seus voluptuosos homens. Nervoso, o marquês olhou para o relógio. Era pouco depois da meia-noite. A libertação teria sido bem-sucedida?

O velho espanhol foi interrompido em seus pensamentos, quando Próspero se levantou e levantou a taça.

— Meus amigos, eu anuncio o meu casamento iminente com Yasmin Weydner. Amanhã vamos realizar a cerimônia de casamento.

Os zechonenses aplaudiram seu governante, enquanto Yasmin tateava nervosamente por seu radiador, que ela tinha escondido sob suas roupas. Se necessário, ela tentaria escapar por conta própria.

 

*

 

Uthe levou Gal’Arn e os outros para a torre.

— Aqui os guardas também dormiam. Jaquine e Anica deram vinho para eles — explicou a jovem terrana.

— Vocês agiram com sabedoria e humanidade — Gal’Arn elogiou as quatro mulheres.

Jezzica olhou de esguelha para o chão. Se Uthe não tivesse se contido, o plano podia ter dado errado. Mas Uthe não mencionou nada sobre isso, então Tazum também decidiu permanecer em silêncio.

O grupo subiu as escadas até o observatório. Os guardas estavam nas escadas e dormiam profundamente. A porta para o interior do observatório, no entanto, estava fechada. Jonathan Andrews disparou um tiro dirigido a fechadura da porta e, em seguida, abriu a porta.

Quando todos entraram, Gal’Arn e Jaktar começaram a estudar os instrumentos. Quando eles se familiarizaram com a tecnologia, começaram a avaliar os dados.

De repente, uma figura apareceu no meio da sala. Era uma mulher. Ela apareceu do nada. Andrews e Remus sacaram suas armas.

— Esperem! — gritou Gal’Arn.

O cavaleiro das profundezas virou-se para a mulher que parecia ser uma terrana.

— Quem é você? De onde você veio? — perguntou ele para ela.

— Eu sou um concepto da entidade DORGON — respondeu a mulher com voz apática. — Eu tenho a seguinte mensagem para transmitir: não procurem pela galáxia de Dorgon. As coordenadas estão corretas, mas o portal estelar em Shagor foi manipulado. A TERSAL deve voltar imediatamente para a Via Láctea. Lá vocês verão DORGON. As coordenadas da Via Láctea devem ser conhecidas por todos. Use o portal estelar para sua jornada.

A aparição se dissolveu. Tão repentinamente quanto ela surgiu, ela desapareceu novamente.

Gal’Arn parecia pensativo.

— Então, não devemos voar para Dorgon, mas para sua galáxia natal a Via Láctea.

— Acho que a ideia não é tão ruim — disse Uthe.

— Além disso, lá nós devemos encontrar este DORGON, quem quer que seja — lembrou Jaktar.

— Então, vamos voltar a Via Láctea. No entanto, eu ainda vou recuperar os dados desta galáxia — decidiu Gal’Arn.

O cavaleiro das profundezas acionou alguns aparelhos. Gal’Arn carregou os dados numa micro-hipertrônica, que fazia parte de sua pulseira multifuncional. Ele agora desconfiava da segurança do portal estelar. Talvez um voo normal para a Via Láctea fosse viável, antes que fossem parar em uma galáxia completamente diferente. Além disso, provavelmente Cau Thon e Goshkan esperariam por eles no portal.

— Agora vamos sair. Nós precisamos buscar os outros — disse ele, quando estava pronto.

— Vocês não vão levar ninguém. Pelo contrário, são vocês que vão ser lavados! — gritou uma voz hostil.

Uthe assustou-se. Parado na porta, armado com uma grande espada, estava o príncipe Tychmon.

— Eu ordenei que vocês fossem aos meus aposentos. Em vez disso, vocês estão aqui se divertindo com outros homens — disse ele, furioso.

— Nós encontramos velhos amigos — disse Uthe sarcasticamente.

Ameaçadoramente o príncipe se aproximou. Ele olhou para Jezzica Tazum, que estava provocativamente na frente dele com as mãos nos quadris.

— Agora você vai comigo para o meu quarto e lá vai satisfazer os meus desejos — exigiu Tychmon.

— Nós nem sequer pensamos nisso! — gritou Jezzica.

— Príncipe, desista. Deixe-nos ir em paz — disse Gal’Arn, juntando-se à conversa.

— Silêncio! Vocês são os estranhos? O que vocês estão fazendo aqui no observatório? Vocês estão invadindo aqui! Por isso, eu os cortarei em pedaços!

Inesperadamente Tychmon se lançou em direção a Gal’Arn. Mas antes que ele pudesse atacar, o radiador de Jezzica disparou. O príncipe gritou, deixou cair a espada e cambaleou até a porta.

— Assassina! Assassina! — gritou ele.

Mas ninguém podia ouvi-lo. O barulho da festa abafou sua chamada e os guardas ainda estavam inconscientes.

Tychmon cambaleou para a escada, onde ele tropeçou e caiu escada abaixo. No final da escada, ele permaneceu imóvel.

Andrews olhou surpreso para Jezzica.

— Anestesia. Eu simplesmente me cansei desse cara — explicou ela e guardou o radiador novamente.

— Eu espero não te cansar nem um pouco — brincou Andrews, ganhando um sorriso forçado de Jezzica.

Gal’Arn e os outros deixaram o observatório e desceram a escada. O cavaleiro das profundezas olhou para o homem caído.

— Ele está morto — disse ele. Ele quebrou o pescoço ao cair.

— Isso foi culpa dele mesmo! — disse Uthe, determinada. — Ele estava completamente louco. Como todos neste castelo. Agora nós precisamos tirar Yasmin e os outros daqui!

Gal’Arn concordou com a cabeça.

— Então, vamos.

O grupo caminhou em direção ao salão de festa.

 

18.

A luta do anão

 

Alegremente os zechonenses dançavam e comemoravam o próximo casamento de seu príncipe. Ninguém parecia prestar atenção a Gwendo, que tinha se retirado. Gwendo tinha decidido deixar o castelo e Próspero. Mas antes disso, ele ainda queria ser compensado e entrou no apartamento de seus antigos mestres.

Ele sabia onde o príncipe guardava seus valores — em um baú. Gwendo abriu-o e tirou o máximo de ouro e joias que ele podia transportar. Então ele foi ao quarto de Eberhard Wieber a fim de procurar por objetos de valor também. Gwendo achava que ele merecia uma indemnização por todas as humilhações que Wieber lhe infligiu. Quando ele estava mexendo na bagagem de Wieber, ele foi interrompido em sua ação.

— Bem, anão! Por ventura querendo roubar?

Assustado, Gwendo virou-se. Atrás dele estava Katschmarek e Niesewitz.

— Nosso melhor amigo e irmão de bebida Eberhard pesa em sua consciência. Agora você pagará por isso — ameaçou Niesewitz.

— Por favor, não! — implorou Gwendo.

Ele mostrou, o que ele tinha roubado dos aposentos de Próspero.

— Olha, eu tenho ouro. Se vocês me deixarem ir, eu dou para vocês.

Niesewitz apenas riu.

— Interessante, nós aceitamos de bom grado esta oferta. Apenas há uma pequena alteração. Você dará isso para nós e morrerá de qualquer maneira. Agarre-o, Reini!

Katschmarek agarrou Gwendo e segurou-o enquanto Niesewitz amarrou-o e depois foi para o fogão primitivo do quarto.

— Está frio aqui. O forno necessita urgentemente de ser aquecido.

De repente tudo ficou claro para Gwendo, os dois amigos de seu atormentador queriam vingar-se dele de uma forma cruel. Ele deveria ter informado Próspero de suas suspeitas, agora era tarde demais.

— Não, por favor, não! Tenham piedade! — implorou o anão em vão.

— Tanto quanto você teve pelo nosso amigo — retorquiu Niesewitz.

Niesewitz abriu a porta do forno. O forno estava acesso e queimava a pleno vapor.

— Rein livre-se dele! — ordenou ele a Katschmarek.

Este empurrou o anão impotente e amarrado dentro da fornalha ardente. Gwendo soltou um grito horripilante, mas isso não tocou os dois homens. Niesewitz fechou a porta do forno.

Enquanto Gwendo queimava no forno, os dois terranos idosos provavam uma aguardente.

— Em homenagem a Eberhard. Ele estaria orgulhoso de nós — ponderou Niesewitz.

— Ao Eberhard! Saúde! — afirmou Katschmarek para ele.

Ambos esvaziaram seus copos com um gole.

 

19.

A morte vermelha

 

No salão de baile, o clima estava no ponto de ebulição. Os hóspedes rolavam no chão e caiam voluptuosamente uns sobre os outros.

— Eu acho, minha querida, que é hora de se recolher. Queremos ir para os meus aposentos para também satisfazer os nossos desejos — disse Próspero em um tom sério.

Yasmin achou que tinha ouvido mal.

— Mas, meu caro príncipe, não antes do casamento! — ela tentou ganhar tempo.

— É usual para nós testar o objeto do desejo um dia antes da cerimônia de casamento. Com vocês, os costumes parecem ser diferentes.

Próspero sorriu sinistro.

— Você acha que eu não notei que você vem de outro mundo? Mas eu achei interessante ver outros seres além desses animais estúpidos. Mas agora a diversão terminou.

Yasmin agarrou seu radiador, mas antes que ela o puxasse, Próspero ficou pálido de repente.

Seu olhar caiu sobre uma figura que apareceu na porta do salão de baile.

A figura estava vestida da cabeça aos pés com uma túnica vermelha e usava um longo manto. A cabeça estava coberta por um capacete, cuja fenda em forma de crescente na parte superior dava uma ideia dos olhos. Yasmin achou a figura assustadora. A criatura parecia brilhar em uma espécie de fogo.

— Eu tinha proibido de usar algo vermelho! — afirmou o príncipe Próspero perturbado.

O vermelho caminhou através do salão de baile.

— Ei, você! Fique onde está! Quem é você que se atreve a desobedecer às minhas ordens? — gritou Próspero, enraivecido.

Mas o vermelho não prestou atenção ao príncipe e continuou calmamente. Próspero levantou-se e o seguiu. Yasmin também queria ir quando alguém, de repente, colocou uma mão enrugada e fria em seu ombro. Horrorizada, ela gritou. Mas então ela reconheceu a quem pertencia a mão.

— Marquês! Como você pode me assustar assim?

— Sinto muito, minha linda criança. Mas acho melhor desaparecermos rapidamente. Eu já mandei os Braunhauer para o pátio. Lá nos encontramos com Niesewitz e Katschmarek, e se tudo correu bem, também com Uthe e nossos amigos libertados.

— Você viu este sinistro vermelho, marquês?

Dom Philippe assentiu.

— Sim, e também o que ele deixou para trás.

O marquês apontou para algumas pessoas por quem o vermelho tinha passado. Eles começaram a sangrar pelo nariz, orelhas e boca. A cor da pele deles começou a se tornar vermelha.

— A morte vermelha! — gritou Yasmin, horrorizada.

O marquês tomou-a pela mão.

— Nós devemos sair daqui antes de encontrá-lo.

A terrana não deixou ele falar duas vezes. Eles saíram dali tão rapidamente quanto o velho espanhol. No caminho, eles encontraram Gal’Arn e os outros.

— Então meu plano funcionou! Vocês estão livres — disse de la Siniestro alegremente.

— Nós lhe devemos agradecimentos, marquês — disse Gal’Arn.

— Agora é melhor desaparecermos — exortou Yasmin.

Ela explicou Gal’Arn o que tinha acontecido na sala.

O cavaleiro das profundezas parecia pensativo.

— Muito estranho. Você está certo, Remus! A morte vermelha apareceu exatamente como neste livro. Mas nós temos outras preocupações. Retornar o mais rápido possível para TERSAL. Mas precisamos de um meio de transporte.

O marquês sorriu.

— Eu cuidei disso. Eu instruí Katschmarek e Niesewitz para arranjarem a carruagem do príncipe Próspero.

Mal o marquês tinha pronunciado, a carruagem chegou. Niesewitz conduzia a carruagem. Katschmarek estava sentado ao lado dele, os Braunhauer estava dentro da carruagem.

— Agora compensou ter andado a cavalo quando eu era batedor — disse Niesewitz com orgulho.

A porta da carruagem se abriu e a sra. Braunhauer, que mais uma vez dava uma impressão de estar muito bêbada, tentou sair.

— De repente, estou tão tonta. Isso deve ser o tempo — disse ela pesadamente.

— Oh não! De novo não — gritou Uthe.

Mas já era tarde demais. Ottilie tropeçou e caiu gritando.

— Eu caí! Eu caí — gritou ela.

— Ela está gritando novamente — resmungou Remus.

Sem mais delongas, Uthe puxou um paralisador e atordoou a mulher que choramingava com isso.

— Agora, você pode carregá-la em silêncio — disse ela ao marido.

Mas quando os homens estavam prestes a levantar a pesada mulher na carruagem, alguns guardas do palácio, que ouviram os gritos, vieram correndo.

Jaktar e Gal’Arn dispararam seus paralisadores sobre eles, enquanto Remus e Jonathan carregavam a velha Braunhauer na carruagem praguejado. Naturalmente, Karl-Adolf Braunhauer dava seus “competentes” comandos. Quando todos os soldados estavam deitados no chão atordoados, Gal’Arn e Jaktar também entraram na carruagem, que, em seguida, saiu pela ponte levadiça, que Katschmarek tinha baixado previamente.

20.

O encontro com Difus

 

Enquanto seus prisioneiros desapareciam, Próspero seguia a figura vermelha apressadamente, ele atravessou todo o castelo. Todos os zechonenses por onde ele passava começaram a sangrar e a ficarem vermelhos.

— Pare, pare! Eu ordeno que você pare imediatamente! — gritou Próspero, furioso.

Finalmente, o vermelho parou. Lentamente, ele se virou para Próspero.

— Quem é você? — perguntou Próspero, apreensivo.

— Eu sou aquele por quem você espera — disse o vermelho com uma voz fria.

— Você não me reconhece? Nós já nos encontramos quando você era um menino.

Próspero estava assustado. Seu rosto demonstrava puro pavor.

— A morte vermelha — sussurrou ele.

— Se você quiser me chamar assim — respondeu o vermelho com indiferença. — Mas eu não vou lhe matar. Eu trago a você e ao seu povo uma nova forma de existência. Eu levarei todos os zechonenses comigo. Um grande trabalho espera por você, Próspero. Nos anos de seu governo você provou ser um digno representante do infortúnio e do horror sem limites.

Próspero se acalmou novamente.

— Difus... Difus, meu senhor e mestre, o enviou? — perguntou ele, confiante.

A criatura de armadura vermelha olhou-o atentamente.

— Meu senhor tem muitos nomes e muitos rostos. Mas você está certo, eu sou um mensageiro daquele a quem você adora. Eu vou levá-lo para ele. Ele benevolamente tem te observando e ele gostou como você agiu. Ele acha que você é digno de assumir maiores atribuições.

— Que tipo de atribuições?

— A luta contra os seus inimigos.

Próspero ficou radiante. Um sonho há muito esperado por ele se tornou realidade. Ele já não pensava mais em Yasmin e nos outros.

— Diga-me amigo, quem é você?

— Eu sou Rodrom. E você é minha criatura Próspero. Criado para apresentação de uma aventura de ficção, você agiu como eu planejei. Os últimos dias me divertiram um pouco. Mas os shagoraianos e terranos escaparam novamente da morte. Por enquanto.

Próspero parecia não entender. Rodrom levantou o braço. Então Próspero começou a gritar. O sangue escorreu de sua boca, nariz e orelhas. Então ele caiu no chão sem vida. Sua alma desprendeu-se do corpo e estava pronto para seguir o seu caminho para seu mestre.

 

*

 

A carruagem chegou em segurança ao local de pouso da TERSAL.

Enquanto Remus e Jonathan, sob o comando de Karl-Adolf Braunhauer, levavam sua esposa Ottilie para a cama para que ela pudesse dormir e com isso se recuperar de sua bebedeira, Gal’Arn e Jaktar começaram os preparativos para a decolagem.

Ninguém prestou atenção a Niesewitz e Katschmarek que secretamente esconderam seu tesouro, que tinham tirado de Gwendo.

— Vamos agora até esse DORGON? — perguntou o marquês, curioso.

— Não, voaremos pela Via Láctea até o seu planeta natal, Terra. Lá nós devemos encontrar DORGON — disse Gal’Arn.

— Maravilhoso, isso é ainda melhor. Mal posso esperar para voltar para casa. Estou curioso para saber o que mudou por lá — alegrou-se Dom Philippe.

“E como posso usar isso a meu favor”, acrescentou ele em pensamentos.

— Deixaremos este planeta horrível rapidamente — disse Gal’Arn.

Pouco tempo depois a TERSAL partiu e deixou Zechon.

 

Epílogo

 

No castelo do príncipe Próspero ninguém mais estava vivo. Todos os zechonenses tinham desaparecido. Em todas as outras cidades e povoados do planeta também não havia mais ninguém vivo. A morte vermelha absorveu todos os zechonenses em si. Ninguém que visitasse este planeta, jamais saberia o que tinha acontecido à sua população.

Rodrom tinha feito da necessidade uma virtude. A energia negativa dos zechonenses era valiosa. Próspero, essa mistura de um personagem fictício e do verdadeiro príncipe de Zechon, tinha potencial para eliminar os adversários de MODROR.

Rodrom ordenou a Cau Thon, a bordo da KARAN, que impedisse a TERSAL de atravessar o portal estelar. Não deveria ser tão fácil para eles voarem para a Via Láctea.

Rodrom desfrutou dos milhões de almas atormentadas dos zechonenses e felicitou-se pela sua interpretação desta obra terrana. E como era apropriada?

— E não havia limite para a escuridão e a decadência da morte vermelha.

 

FIM

 

O voo da TERSAL parece ter chegado a um fim. Seu objetivo agora é a Via Láctea. No próximo volume, o cenário muda de volta para a galáxia natal dos terranos.

Após a destruição do mundo de Sverigor pela MORDRED, Camelot estava tentando desesperadamente obter mais informações sobre a organização terrorista. O diplomata somerense Sruel Allok Mok, a serviço de Camelot, segue várias pistas que levam finalmente a BASE. Lá ele se encontra com o agente da SLT Will Dean. O volume 18 foi escrito por Jürgen Freier e leva título: A TRILHA DE MORDRED

COMENTÁRIO

 

O presente episódio de Jens Hirseland é baseado nos números antigos 32 e 33.

Quando eu me deparei com o projeto DORGON como um leitor de mais de uma década atrás, esses dois romances foram para mim um dos destaques da série. A integração das duas narrativas de Poe na história de Dorgon, ou seja, o jogo diabólico de Rodrom com os medos primordiais dos humanos é absolutamente incrível.

Eu gostaria, portanto, de aproveitar esta oportunidade para apresentar os leitores de Dorgon original, o trabalho de Poe, se eles ainda não o conheciam.

Edgar Allen Poe (1809 a 1849) foi um escritor norte-americano que cunhou decisivamente os gêneros de literatura criminal, ficção científica e literatura de terror. Além disso, com seus poemas ele lançou as bases para o simbolismo e, portanto, para a poesia moderna.

Poe é considerado ao lado do marquês de Sade, E.T.A. Hoffmann, Lord Byron, Mary Shelley, Charles Baudelaire e Gustave Flaubert como um dos principais representantes do chamado “Romantismo Negro”, caracterizado por enfatizar características irracionais e melancólicas, e fascinado pela configuração da loucura humana e sua maldade. As obras desses artistas e autores apresentam um caráter sombrio e resignado ou mesmo macabro, fantasmagórico-demoníaco até satânico. Muitas vezes, o retrato dos excessos sexuais e dos fenômenos fantásticos e grotescos é o tema central desta tendência do romantismo.

As grandes obras de Poe são:

Além disso, há muitos poemas, dos quais apenas o poema surrealista “O Corvo” será mencionado aqui.

Aqui, eu gostaria também de salientar que muitas obras dos escritores acima mencionados disponíveis para download gratuito na internet, por exemplo, através do projeto Gutenberg no Spiegel Online.

 

Jürgen Freier

 

GLOSSÁRIO

 

Próspero

 

No ano de 1290 NCG, o príncipe Próspero era um governante local no planeta Zechon na galáxia Zerachon. Ele é alto, tem um rosto angulado e usando um bigode. Seu nome verdadeiro é Garshrek. Rodrom manipula todo o povo zechonense para enredar a tripulação da TERSAL em um jogo diabólico. O qual é inspirado precisamente nas obras “A Máscara da Morte Vermelha” e “Hop-Frog” do escritor terrano Edgar Allen Poe.

Garshrek, alias Próspero, desempenha seu papel sem saber, já que ele não se lembra de eventos anteriores de sua vida, quando a TERSAL chega. No entanto, de acordo com Rodrom, Garshrek / Próspero deveria ter sido anteriormente um regente sádico.

Próspero captura a tripulação da TERSAL e pratica jogos sádicos em seu castelo. Ele quer tomar Yasmin Weydner como esposa e, até mesmo, mata sua atual esposa Kamelia. Mas — como no romance — a morte vermelha aparece. A tripulação da TERSAL consegue escapar, enquanto todos os zechonenses e Próspero morrem e dissolvem em Rodrom ou onde quer que seja.

 

Zechon

Mapa-múndi de Zechon por (C) Stefan Wepil

Zechon é um planeta na galáxia Zerachon. Ele é parecido com a Terra, tem uma vegetação exuberante e é escassamente povoada com 176 milhões de habitantes. Apesar das pessoas do lugar saberem em parte da existência de alienígenas, já que existe um observatório no castelo de Próspero, vivem na idade medieval.

Paisagem sombria de Zechon por (C) Stefan Wepil

 

Zechonenses

 

Os zechonenses são humanoides da galáxia Zerachon, um povo muito semelhante aos humanos. Eles habitam o planeta Zechon e vivem em um nível de desenvolvimento medieval. No entanto, a existência de alienígenas é conhecida por alguns deles. Em 1290 NCG, todo o povo é manipulado mentalmente por Rodrom para desempenhar um papel na sua armadilha diabólica para a tripulação da TERSAL. Este povo já atormentado por doenças, guerras e opressão, após a fuga da TERSAL de Zechon, é completamente extinto e absorvido espiritualmente por Rodrom.

 

Eberhard Wieber

 

Eberhard Wieber nasceu na Alemanha em 1921. Serviu como um médico durante a Segunda Guerra Mundial no Exército Alemão e mais tarde tornou-se um oficial das forças armadas alemãs. Quando a Humanidade começou seu processo de unificação como a Terceira Potência, Wieber se aposentou. Ele foi sequestrado em 1984 em Berlim juntamente com seus amigos Werner Niesewitz e Reinhard Katschmarek pelos casaros e levados como objetos de pesquisa para uma dobra de espaço-tempo entre a Via Láctea e Andrômeda. Lá ele e os outros viveram cerca de 3.000 anos sob observação em um campo de estase, em 1290 NCG juntamente com o marquês de la Siniestro eles estavam sendo transportados por uma nave transportadora, que deixou a dobra de espaço-tempo, mas ficou encalhada no vazio. Lá eles foram encontrados pelos terranos, que por sua vez foram transportados para a galáxia Zerachon. Wieber precisou mudar para a TERSAL e fez pouco pelo bem comum. No castelo de Próspero, ele atormentou um servo anão, que se vingou amargamente de Wieber e o matou.

 

1 Nota do revisor: apesar de o original usar Prosperoh, em inglês, o personagem de “A Máscara da Morte Vermelha” de Edgar Allan Poe já foi traduzido diversas vezes para o português como Próspero.

2 Nota do tradutor: a palavra Pimpf é uma gíria para qualquer membro do Movimento da Juventude Alemã, mais tarde, especialmente do Deutsches Jungvolk, a camada mais jovem da Juventude Hitlerista. Seu significado no Alto Alemão é “menino”, “pequeno malandro”, ou “patife”, originalmente “peido”.

3 Nota do tradutor: casinha é o termo coloquial para um banheiro sem uma purga de água (WC seco), no qual os excrementos e a urina caem em uma caixa ou um poço e permanecem lá até que o poço ou caixa seja preenchido e o conteúdo seja descartado.